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quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013

Sete concepções equivocadas sobre a educação, segundo Jacques Maritain

Publico abaixo o resumo de um trecho da obra “Rumos da educação”, de Jacques Maritain, onde ele analisa sete equívocos sobre a natureza e os fins da educação.

A tarefa principal da Educação é dirigir o desenvolvimento dinâmico que faz um homem ser homem. O homem não pode progredir, dos pontos de vista intelectual e moral, na vida específica que lhe é própria, se não for auxiliado pela experiência coletiva das gerações procedentes.

Educar para o meio social é o segundo fim.

Os erros:

Primeiro erro – Ignorância dos fins

Educação é arte que pertence ao domínio da moral. A excelência dos meios pode ser perigosa. Sendo os meios tão bons, somos levados a perder de vista os fins.

Segundo erro – Ideias falsas concernentes aos fins

A tarefa da educação é ajudar a guiar a criança à realização humana. Portanto, educação não pode furtar-se ao empreendimento filosófico que pergunta o que é ser homem e qual é o seu fim.
Uma concepção puramente científica da educação ignora o “ser enquanto ser”.

Se propusermos uma educação baseada numa concepção puramente científica do homem, quando tivermos de responder às questões sobre a natureza e o destino do homem, seria preciso extrair da ciência uma espécie de metafísica inteiramente contrária à sua estrutura típica. A educação perde o mistério da significação ontológica do homem e este torna-se um animal adestrado em proveito do Estado.

A concepção integral do homem é filosófica e religiosa. Filosófica, porque tem por objeto a natureza ou essência do homem; religiosa, por causa do modo de existir da natureza humana vocacionada e provocada em relação a Deus. Quando é dito que a pessoa é um todo, um universo em si mesma, dizemos que ela está em relação direta com o reino do ser, da verdade, da bondade e da beleza – isto é, com Deus. Por amor, dedica-se livremente a seres que são para ele como outros “eus”. 

Terceiro erro – Pragmatismo

A vida, para ser digna, existe para um fim. A contemplação e a perfeição de si mesmos, nas quais a existência humana aspira a florescer, escapam ao horizonte do espírito pragmático.

Quarto erro – Sociologismo

O acondicionamento social não é a regra suprema da educação. A essência da educação é formar um homem – e por aí, preparar um cidadão. A educação para a comunidade requer a educação para a pessoa. Infeliz é o jovem que não conhece os prazeres do espírito e não se alegra no saber e na beleza. A concepção pragmática e sociológica subordina e escraviza a educação às tendências que se desenvolvem na vida coletiva da sociedade.

Quinto erro – Especialismo intelectual

A suprema realização da educação não é a especialização científica e técnica. Embora exigida pela vida moderna, ela deve ser compensada, sobretudo na juventude, por uma formação geral intensa. O animal é um especialista perfeito. Ele fixa toda a sua capacidade de aprender numa determinada tarefa a ser executada. O programa educacional que visa formar especialistas, incapazes de apreciar outras matérias além de sua competência, tem como resultado a animalização progressiva da mente e da vida humana. Isso prejudica não apenas o tempo profissional dos homens, mas também o tempo livre, cada vez mais ocupado por divertimentos sociais medíocres e, o que é mais grave, por uma religiosidade de sentimentos vagos, sem conteúdo lógico e de realidade.

A vida da comunidade corre riscos graves com o “especialismo”, porque a disposição das atividades humanas em compartimentos especializados torna a atividade política exclusiva aos tecnocratas do Estado que, por sua vez, desconhecem as riquezas espirituais que garantem a consistência do “governo do povo, pelo povo e para o povo”.

A educação, constituída por regras imperativas de algum sistema de orientação profissional, tornar-se-ia um processo de diferenciação de abelhas na colmeia humana. Uma concepção democrática da vida exige educação liberal para todos, porque mesmo para o sucesso das atividades industriais, a educação que libera e alarga a mente é mais importante do que a especialização técnica. 

Sexto erro: Voluntarismo

A tendência voluntarista desenvolvida por Shopenhauer submete a inteligência à vontade, recorrendo às virtudes das forças irracionais. O mérito das melhores e mais perfeitas formas de voluntarismo no campo ideológico foi chamar a atenção para a importância essencial dos atos volitivos e para a primazia da moralidade, da virtude e da generosidade na formação do homem. De fato, antes de ser erudito, é importante ser reto. Porém, as realizações pedagógicas do voluntarismo foram decepcionantes do ponto de vista do bem e um sucesso do ponto de vista do mal.

Escolas e organizações da juventude nazista arruinaram senso de verdade nos espíritos, submetendo a inteligência aos desejos do Estado. Por outro lado, nos países democráticos, a pedagogia voluntarista pode ser descrita como esforço para compensar inconveniências do mero intelectualismo por uma educação da vontade, do sentimento, da formação do caráter, etc. Porém, é fácil deformar o caráter dessa forma. O voluntarismo exagera a importância da vontade.

Mortimer Adler diz: “Assim como no domínio da política, a primazia do querer identifica a autoridade com a força, assim também no domínio do pensamento tal primazia reduz todas as coisas a opiniões arbitrárias ou a convenções acadêmicas”. Tudo depende da vontade de crer. Não há verdades primárias, mas apenas postulados e exigências da vontade para que isto ou aquilo seja tido como certo. Assim sendo, todo conhecimento repousa, em certo sentido, sobre os atos da fé, embora o único princípio de tal fé seja nossas preferências pessoais.

Acreditamos que a inteligência, em si, é mais nobre do que a vontade, pois sua vontade é mais imaterial e universal. Porém, é pela vontade, quando ela é boa, que o homem se torna bom e reto, não pela inteligência, por mais perfeita que seja. Assim, a educação completa do homem deve contribuir para que tanto a inteligência como a vontade caminhem para a sua perfeição, mas a formação da vontade é certamente mais importante que a formação do intelecto.

Sétimo erro: Tudo pode ser aprendido

Os sofistas gregos acreditavam que tudo, mesmo a virtude, pode ser adquirida mediante o ensino dos mestres e por meio de explicações científicas. O ensino da moral, no que concerne à sua base intelectual, deve ocupar importante lugar na escola e na universidade. Mas a apreciação exata dos casos práticos, que os antigos denominavam prudentia, é uma capacidade interior e vital de discernimento desenvolvida no espírito e apoiada por uma vontade bem dirigida. Também a experiência, que é um fruto incomunicável do sofrimento e da memória, não pode ser adquirida num curso. Sir Arthur Clutton-Brock diz: “A Educação deveria ensinar-nos como amar e o que deveríamos amar. Os grandes feitos da história foram obras de grandes apaixonados, dos santos, dos homens de ciência, dos artistas. O problema da civilização consiste em dar a cada homem a oportunidade de ser alguém daquelas grandes estirpes”.

terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

O Despertar Religioso da Criança: O Bebê


O Bebê

Durante todo o período que vai, para uns, desde o nascimento até dez dias; - para outros, até a quarta semana - a criança é um recém-nascido. Gesell chega a dizer que, no decurso desse primeiro período, durante o qual, ele deve aperfeiçoar suas diversas adaptações vitais, o recém-nascido ainda não nasceu completamente (1).

A etapa do berço

Qualifica-se geralmente a etapa seguinte, que dura até um ano, como sendo a da Criança de peito, por ser dominada pelo fisiológico. É essencialmente um período de esboço, uma espécie de prolongamento ex-utero da vida fetal, durante o qual os diferentes aparelhos continuam a organizar-se. É a etapa do berço, a idade espinal (ou antes infra-cortical), a época dos interesses perceptivos, período dos complexos labiais e dentais, a inteligência reduz-se a aquisições sensori-motoras; a personalidade é confusa (2).

Não é nossa intenção descrever pormenorizadamente, em todos os setores, o comportamento do bebê, mas indicar apenas os principais momentos que, em sua evolução, têm interesse para uma mãe educadora, pois, aqui, a educadora é, antes de tudo, a mãe.

Com um mês

Com um mês, o bebê sai dessa sonolência, que fora das refeições, é seu estado habitual e lembra o sono fetal. O tonus muscular cresceu. Não pode, contudo, estender completamente os membros inferiores. Fica com os punhos fechados, os dedos cobrem o polegar. Não sabe segurar um objeto. Deitado de lado, procura virar a cabeça. com um violento barulho, que o surpreende, estremece com todo o corpo. Acordado, abre os olhos, que permanecem fixos, mas podem seguir um objeto brilhante ou a luz. Durante algum tempo, ainda, olha impassível o rosto da mãe, pertinho do seu, insensível à sua presença. E, subitamente, mais ou menos, na sexta semana, esboça um sorriso, primeira manifestação da inteligência. Seu vocabulário limita-se a alguns sons guturais. Assim se delineiam as funções essenciais.

Com quatro meses

Com quatro meses, tudo se torna mais nítido. Pode virar a cabeça no berço, mantê-la firme, quando a mãe o toma nos braços. Gosta aliás de passar da posição horizontal, para a vertical, pois assim pode explorar um horizonte mais vasto.

Os dedos se relaxam, abrem-se as mãos. Olha-as e brinca com elas, como se não fizessem parte dele. Leva-as à boca, com os objetos que agarra.

Depois, por etapas, aperfeiçoa-se a preensão, distingue cada vez melhor o próprio corpo daquilo que não é ele. Será primeiro a preensão entre o polegar e os dedos, para chegar gradualmente, lá para os oito meses, a pegar o objeto entre o polegar e um dedo.

Mas, antes deste estágio da preensão, ele aprenderá sobretudo com os olhos. Percebe o momento em que preparam suas refeições. Reconhece a mãe e as pessoas íntimas. O sorriso torna-se espontâneo. Não exprime mais somente a satisfação de um estômago cheio. É um sorriso psíquico. Em sua alegria, canta, ri baixinho, e, às vezes, dá gargalhadas. Deste período, guardemos, sobretudo, que a criança primeiro olha e, depois, pega.

Com sete meses

Aos sete meses, segundo a expressão de Gesell, é a bela época da manipulação. Esta manipulação desenvolve sua habilidade manual e também lhe permite progredir no conhecimento do que não é ele.

Tudo o que pega leva aos lábios ou faz passar de uma mão para a outra. De outra parte, completa suas percepções sociais, seguindo o movimento dos que o cercam. É a etapa da compreensão pura e dos vocalizos. Não começará a dizer Papai, Mamãe senão aos nove meses. A dominante dessa fase manda que se diga que, então, ele é um manipulador.

Aos nove meses

Aos nove meses realizam-se novos progressos. O pequenino procura ficar de pé. Atira os pés um na frente do outro; com onze meses, poderá dar os primeiros passos.

Começa o período locutório. Diz Papai, Mamãe . É possível ensinar-lhe uma ou duas palavras por imitação. Mas, para ele, o grande interesse será, em breve, o andar, que lhe permitirá entrar em contato com o mundo exterior, de modo novo e enriquecedor. Essa fase do andarilho começará, mais ou menos, aos onze ou doze meses.

A afetividade

Durante este primeiro ano, a afetividade desempenha um papel capital. A criança está na fase de benquerença captadora em que a mãe tem influência predominante. Compreende-se, então, que, em tais condições, desmamar, isto é, privar a criança de um contato íntimo com a mãe, desse alimento que foi sua vida, porque nutria tanto seu corpo, como sua necessidade de carinho, seja um sofrimento muito duro. Falou-se no drama da ablactação. A expressão nada tem de excessivo, por pouco que se queira refletir sobre o que é a mãe para o pequenino, aos seis ou sete meses. Por isso a mãe deve esforçar-se por amenizar a transição e ajudar o filho a correr esse risco.

A mãe educadora cristã

Ela é realmente para o filho a educadora insubstituível. Nesse período em que a criança depende tanto da mãe, que a consideraram como vivendo numa espécie de útero exterior, existe nela uma concentração das influências do ambiente que nunca encontrará seu equivalente. De outro lado, a criança, no primeiro mês, enquanto dura sua atitude passiva, tem grandísima receptividade. Se a mãe quando frequentemente se acha a sós com o filhinho lhe traz não só a consolação, o amor, a alegria - mas também em certas horas, a verdade de seu recolhimento, que torna Deus presente - se diante dele, ela sabe não só sorrir, brincar, cantar, mas ainda rezar, se ela procede com ele não unicamente como com uma graciosa boneca, às vezes tão engraçada e encantadora, mas também como com um sacrário vivo, onde Deus reside, então sua fé a tornará jeitosa para preparar com Deus todos os encontros possíveis.

A criança gosta de olhar. A mãe terá o cuidado de pôr à vista uma medalha de berço, que represente Jesus e a Virgem. A criança gosta de segurar, de manipular. É o momento de atirar à imagem bendita os primeiros beijos, de ensinar-lhe a fazer o sinal da cruz sobre si, logo que a mãozinha fica mais flexível (3). Quando ele já pode dizer Papá, Mamã , ela pensará que é também capaz de dizer Jesus, Maria.

Logo que ele dá os primeiros passinhos, ela o encaminhará para a imagem de Jesus. Ela o fará entrar no grande silêncio da Casa de Deus, mandar um beijo ao sacrário. Todas estas atitudes, todos estes atos, todos estes gestos, feitos com profunda fé e grande respeito, impregnarão a alma da criança, mesmo se no futuro ela não guardasse deles nenhuma lembrança.

É assim que, nos primeiros meses, depois de nascida, a criança conhecerá a Deus, ou melhor, terá gravado no seu inconsciente, o sentimento de sua existência pelo comportamento da mãe. Não há - salvo para o Espírito Santo, cuja ação misteriosa nos escapa - nenhum acesso para esta almazinha ainda perdida nas reações biológicas, senão este caminho apetitivo, mais até do que afetivo.

Ora, precisamente porque se trata não só de uma ação natural, numa psicologia embrionária, mas de uma ação sobrenatural na vida duma alma batizada, é a verdade deste comportamento materno que importa mais do que suas modalidades.

Se existe uma educação que influi pelo ser do educador mais do que por sua ação, é bem a que procura atingir uma almazinha cujas atividades são tão reduzidas, tão distantes, tão desconhecidas, tão misteriosas.

E todavida sabemos bem qual seja a profundeza de sua ação, pois todos nós conhecemos crianças que sugaram a fé com o leite materno.

*****
(1) Gesell (Arnold) e Ilg. (F. L.). L'enfant de 5 à 10 ans. P.U.F., 1949, p. 32.

(2) Dr. Bize. L'évolution psycho-physiológique de l'enfant, p. 209.

(3) Ce que l'Eglise attend des Mamans (L.F.A.C., p. 68).

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

Tríduo Pascal





140. Todos os anos, no "santíssimo tríduo do crucificado, do sepultado e do ressuscitado" ou Tríduo Pascal, que vai desde a Missa vespertina da Quinta-Feira na Ceia do Senhor até às Vésperas do Domingo da Ressurreição, a Igreja celebra, "em íntima comunhão com Cristo, seu Esposo", os grandes mistérios da Redenção Humana.


Quinta-feira Santa
A visita ao lugar da reposição

141. A piedade popular é particularmente sensível à adoração do Santíssimo Sacramento, que se dá após a celebração da Missa na Ceia do Senhor. Segundo um processo histórico, ainda não bem esclarecido em todas as suas fases, o lugar da reposição foi considerado como "santo sepulcro"; os fiéis aí acorriam para venerar Jesus que, após a sua deposição da Cruz, foi colocado no túmulo, onde permaneceu cerca de quarenta horas.

É preciso que os fiéis sejam esclarecidos sobre o sentido da reposição: realizada com austera solenidade e ordenada essencialmente à conservação do Corpo do Senhor para a comunhão dos fiéis na Ação litúrgica da Sexta-feira Santa e para o Viático dos enfermos, é um convite à adoração, silenciosa e prolongada, do admirável Sacramento instituído nesse dia.

Portanto, quanto ao lugar da reposição, evite-se o termo "sepulcro", e na sua preparação, não lhe seja dado o aspecto de um lugar de sepultura; de fato, o tabernáculo não deve ter a forma de sepulcro ou urna funerária: o Sacramento seja guardado num tabernáculo fechado, sem fazer sua exposição com o ostensório.

Depois da meia-noite da Quinta-feira Santa, a adoração se realiza sem solenidade, pois já começou o dia da Paixão do Senhor.


Sexta-feira Santa
A procissão da Sexta-feira Santa

142. Na Sexta-feira Santa, a Igreja celebra a Morte salvífica de Cristo. Na ação litúrgica da tarde ela medita a Paixão do seu Senhor, intercede pela salvação do mundo, adora a Cruz e comemora a própria origem do lado aberto do Salvador (cf. Jo 19, 34).

Entre as manifestações de piedade popular da Sexta-feira Santa, além da Via-Sacra, destaca-se a procissão do "Cristo morto". Ela repropõe, à maneira própria da piedade popular, o pequeno cortejo de amigos e discípulos que, após ter descido da Cruz o corpo de Jesus, o levaram ao lugar em que havia o "túmulo escavado na rocha, onde ninguém ainda tinha sido sepultado" (Lc 23, 53).

A procissão do "Cristo morto" geralmente se faz num clima de austeridade, de silêncio e de oração e com a participação de muitos fiéis, os quais percebem diversos significados no mistério da sepultura de Jesus.

143. Entretanto, é preciso que tal manifestação de piedade popular não se apresente, nem por causa da escolha da hora, nem por causa da modalidade de convocação dos fiéis, aos olhos destes como uma substituição das celebrações litúrgicas da Sexta-feira Santa.

Portanto, na preparação pastoral da Sexta-feira Santa dever-se-á dar o primeiro lugar e o máximo relevo à solene Ação litúrgica e se deverá mostrar aos fiéis que nenhuma outra prática de piedade deve substituir objetivamente em sua estima esta celebração.

Enfim, deve-se evitar a inserção da procissão do "Cristo morto" no âmbito da solene Ação litúrgica da Sexta-feira Santa, pois isso seria um hidridismo celebrativo distorcido.


Encenação da Paixão de Cristo

144. Em muitos países, durante a Semana Santa, sobretudo na Sexta-feira, são feitas encenações da Paixão de Cristo. Muitas vezes são "sagradas encenações", que com justiça podem ser consideradas como prática de piedade. De fato, as sagradas encenações têm origem na própria Liturgia. Algumas delas, nascidas por assim dizer no coro dos monges, através de um processo de progressiva dramatização, passaram para o adro da igreja.

Em muitos lugares, a preparação e a execução da encenação da Paixão de Cristo são confiadas a confrarias, cujos membros assumiram particulares compromissos com a vida cristã. Nessas encenações, atores e espectadores se envolvem num movimento de fé e de piedade genuínas. Deseja-se vivamente que as sagradas encenações da Paixão do Senhor não se afastem dessa pura linha de expressão sincera e gratuita de piedade, para assumir as características próprias das manifestações folclórica, que visam não tanto ao espírito religioso e sim ao interesse dos turistas.

Quanto às sagradas encenações, mostre-se aos fiéis a profunda diferença que existe entre a "encenação', que é mimese, e a "ação litúrgica", que é anamnese, presença mistérica do evento salvífico da Paixão.


A recordação de Nossa Senhora das Dores

145. Pela sua importância doutrinal e pastoral, recomenda-se que não se deixe de lado "a memória das dores da Bem-Aventurada Virgem Maria". A piedade popular, seguindo a narrativa evangélica, ressaltou a associação da Mãe à Paixão salvífica do Filho (cf. Jo 19,25-27; Lc 2,34) e deu vida a diversas práticas de piedade, entre as quais:

  • O Planctus Mariae (O pranto de Maria), intensa expressão de dor, às vezes valorizada por altas qualidades literárias e musicais, na qual a Virgem chora não somente a morte do Filho, inocente e santo, o seu sumo bem, mas também o extravio do seu povo e o pecado da humanidade;
  • A Hora da Desolada, na qual os fiéis, através de expressões de comovida devoção, "fazem companhia" à Mãe do Senhor, que ficou sozinha, imersa numa profunda dor, após a morte do seu único Filho; contemplando a Virgem com o Filho nos braços - a Pietà -, entendem que em Maria se concentra a dor do universo por causa da morte de Cristo; vêem nela a personificação de todas as mães que, ao longo da história, choraram a morte de um filho. Essa prática de piedade, que em alguns lugares da América Latina é chamada de El pésame, não deverá se limitar a expressar o sentimento humano diante de uma mãe desolada, mas na fé da ressurreição, saberá ajudar a compreender a grandeza do amor redentor de Cristo e a participação da sua Mãe nesse amor.

Sábado Santo

146.  "No Sábado Santo a Igreja se detém junto ao sepulcro do Senhor, meditando a sua Paixão e Morte, a descida à mansão dos mortos e esperando na oração e no jejum a sua Ressurreição."

A piedade popular não deve permanecer alheia ao caráter peculiar do Sábado Santo; portanto, os costumes e as tradições festivas ligados a esse dia, no qual antigamente era antecipada a celebração pascal, devem ficar reservados para a noite e o dia de Páscoa.

A "Hora da Mãe"

147. Em Maria, segundo o ensinamento da tradição, reuniu-se todo o corpo da Igreja: ela é a reunião universal dos fiéis. Por isso, a Virgem Maria que se detém junto ao sepulcro do Filho, como a tradição eclesial a representa, é ícone da Virgem Igreja que vigia junto ao túmulo do seu Esposo, na expectativa de celebrar a sua Ressurreição.

A prática de piedade Hora da Mãe se inspira nessa intuição da relação entre Maria e a Igreja: enquanto o corpo do Filho repousa no sepulcro e a sua alma desceu à mansão dos mortos para anunciar aos seus antepassados a iminente libertação da região das sombras, a Virgem, antecipando e personalizando a Igreja, espera cheia de fé a vitória do Filho sobre a morte.


Domingo de Páscoa

148. No Domingo de Páscoa, máxima solenidade do Ano Litúrgico, também são realizadas diversas manifestações de piedade popular: todas elas são expressões cultuais que exaltam a condição nova e a glória de Cristo ressuscitado, assim como a força divina que jorra da sua vitória sobre o pecado e sobre a morte.


O encontro do Ressuscitado com a Mãe

149. A piedade popular intuiu que a associação do Filho à Mãe é constante: na hora da dor e na hora da Morte, na hora da alegria e da Ressurreição.

A afirmação litúrgica, segundo a qual Deus encheu de alegria a Virgem por ocasião da Ressurreição do Filho, foi, por assim dizer, traduzida e quase representada pela piedade popular na prática de piedade do Encontro da Mâe com o Filho ressuscitado: na manhã de Páscoa, dois cortejos, um carregando a imagem de Nossa Senhora das Dores, o outro a de Cristo ressuscitado, se encontram, significando que a Virgem foi a primeira e plena participante do mistério da Ressurreição do Filho.

Quanto à essa prática de piedade vale a observação feita para a procissão do "Cristo morto": a sua realização não deve assumir aspectos de relevância maior do que as próprias celebrações litúrgicas do domingo de Páscoa, nem ceder lugar a misturas inapropriadas.


 A bênção da refeição familiar

150. Um sentido de novidade percorre toda a Liturgia pascal: nova é a natureza, pois no hemisfério norte a Páscoa coincide com o despertar da primavera; novos são o fogo e a água; novos os corações dos cristãos, renovados pelo sacramento da penitência e, como é desejável, pelos próprios sacramentos da iniciação cristã; nova, por assim dizer, é a Eucaristia: são sinais e realidade-sinal da nova condição de vida inaugurada por Cristo mediante sua Ressurreição.

Entre as práticas de piedade que se ligam ao evento da Páscoa estão a tradicional bênção dos ovos, símbolo da vida, e a bênção da refeição familiar; esta última, que em muitas famílias cristãs é um costume diário e que deve ser estimulado, adquire particular significado no dia de Páscoa: com a água benta na Vigília Pascal, que os fiéis têm o louvável costume de levar para casa, o chefe da família ou um outro membro da comunidade doméstica abençoa a refeição festiva.


A saudação Pascal à Mãe do Ressuscitado

151. Em alguns lugares, no encerramento da Vigília Pascal ou depois das Segundas Vésperas do Domingo de Páscoa, realiza-se uma breve prática de piedade: benzem-se flores, que serão distribuídas aos fiéis em sinal de alegria pascal, e se presta homenagem à imagem de Nossa Senhora das Dores, que às vezes é coroada, enquanto se canta o Regina caeli. Os fiéis, que se haviam associado à dor da Virgem na Paixão do Filho, querem agora se alegrar com ela pelo evento da Ressurreição.

Essa prática de piedade, que não deve ser misturada com a ação litúrgica, está de acordo com os conteúdos do Mistério Pascal e constitui mais uma prova de como a piedade popular percebe a associação da Mãe à obra salvífica do Filho.

Os Mandamentos da Igreja



Os Mandamentos da Igreja situam-se nesta linha de uma vida moral ligada à vida litúrgica e que dela se alimenta. O caráter obrigatório dessas leis positivas promulgadas pelas autoridades pastorais tem como fim garantir aos fiéis o mínimo indispensável no espírito de oração e no esforço moral, no crescimento do amor de Deus e do próximo.

1 O Primeiro Mandamento da Igreja ("Participar da Missa inteira nos domingos e outras festas de guarda e abster-se de ocupações de trabalho") ordena aos fiéis que santifiquem o dia em que se comemora a ressurreição do Senhor e as festas litúrgicas em honra dos mistérios do Senhor, da Santíssima Virgem Maria e dos Santos, em primeiro lugar participando da celebração eucarística, em que se reúne a comunidade cristã, e se abstendo de trabalhos e negócios que possam impedir tal santificação desses dias.

2 O Segundo Mandamento ("Confessar-se ao menos uma vez por ano") assegura a preparação para a Eucaristia pela recepção do sacramento da Reconciliação, que continua a obra de conversão e perdão do Batismo.

3 O Terceiro Mandamento ("Receber o Sacramento da Eucaristia ao menos pela Páscoa da ressurreição") garante um mínimo na recepção do Corpo e Sangue do Senhor em ligação com as festas pascais, origem e centro da Liturgia cristã.

4 O Quarto Mandamento ("Jejuar e abster-se de carne, conforme manda a Santa Mãe Igreja") determina os tempos de ascese e penitência que nos preparam para as festas litúrgicas; contribuem para nos fazer adquirir o domínio sobre nossos instintos e a liberdade de coração.

5 O Quinto Mandamento ("Ajudar a Igreja em suas necessidades") recorda aos fiéis que devem ir ao encontro das necessidades materiais da Igreja, cada um conforme as próprias possibilidades.


Catecismo da Igreja Católica, 2041-2043.

domingo, 17 de fevereiro de 2013

Das Obras de Misericórdia

Obras de Misericórdia Corporais

  • [1] - Visitar e cuidar dos enfermos
  • [2] - Dar de comer a quem tem fome
  • [3] - Dar de beber a quem tem sede
  • [4] - Dar pousada aos peregrinos
  • [5] - Vestir os nus
  • [6] - Redimir os cativos
  • [7] - Enterrar os mortos

Obras de Misericórdia Espirituais
  • [1] - Ensinar a quem não sabe
  • [2] - Dar bom conselho a quem dele necessita
  • [3] - Corrigir a quem erra
  • [4] - Perdoar as injúrias
  • [5] - Consolar o triste
  • [6] - Sofrer com paciência os defeitos do próximo
  • [7] - Rogar a Deus pelos vivos e pelos mortos


quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

Quaresma

Disponível em http://www.vatican.va/roman_curia/congregations/ccdds/documents/rc_con_ccdds_doc_20020513_vers-direttorio_en.html



124. A Quaresma é tempo que precede e predispõe à celebração da Páscoa. Tempo de escuta da palavra de Deus e de conversão, de preparação e de memória do Batismo, de reconciliação com Deus e com os irmãos, de recorrer com mais frequência às "armas da penitência cristã": a oração, o jejum, a esmola (cf. Mt 6, 1-6.16-18).

No âmbito da piedade popular o sentido mistérico da Quaresma não é facilmente percebido  e não são colhidos alguns de seus grandes valores e temas, tais como a relação entre o "sacramento dos quarenta dias" e os sacramentos da iniciação cristã, como também o mistério do "êxodo" presente ao longo de todo o itinerário quaresmal. Segundo uma constante da piedade popular, levada a se deter nos mistérios da humanidade de Cristo, na Quaresma os fiéis concentram a sua atenção na Paixão e Morte do Senhor.

125. O início dos quarenta dias de penitência, no Rito romano, é qualificado pelo austero símbolo das Cinzas , que caracteriza a Liturgia da Quarta-feira de Cinzas. Pertencente ao antigo ritual com que os pecadores convertidos se submetiam à penitência canônica, o gesto de se cobrir de cinzas tem o sentido de reconhecer a própria fragilidade e mortalidade, que necessita ser remida pela misericórdia de Deus. Longe de ser um gesto puramente exterior, a Igreja o conservou como símbolo da atitude do coração penitente que cada batizado é chamado a assumir no itinerário quaresmal. Os fiéis, que acorrem numerosos para receber as Cinzas, serão, portanto, ajudados a perceber o significado interior implicado nesse gesto, que abre à conversão e ao compromisso da renovação pascal.

Apesar da secularização da sociedade contemporânea, o povo cristão percebe claramente que durante a Quaresma é preciso orientar os ânimos para as realidades que verdadeiramente contam; que se exige empenho evangélico e coerência de vida, traduzida em boas obras, em forma de renúncia àquilo que é supérfluo e de luxo, em manifestações de solidariedade com os sofredores e necessitados.

Os fiéis que frequentam raramente os sacramentos da penitência e da Eucaristia também sabem, devido à longa tradição eclesial, que o tempo da Quaresma-Páscoa está em relação com  o preceito da Igreja de confessar os próprios pecados graves ao menos uma vez por ano e de receber a Santa Comunhão ao menos uma vez ao ano, de preferência durante o tempo pascal.

126. A diferença entre a concepção litúrgica e a visão popular da Quaresma não impede que o tempo dos "Quarenta dias" seja um espaço eficaz para uma fecunda interação entre Liturgia e piedade popular.

Um exemplo dessa interação está no fato de que a piedade popular privilegia alguns dias, algumas práticas de piedade, algumas atividades apostólicas e caritativas que a própria Liturgia prevê e recomenda. A prática do jejum, tão característica desde a antiguidade neste tempo litúrgico, é "prática" que liberta voluntariamente das necessidades da vida terrena para descobrir a necessidade da vida que vem do céu: "Não só de pão viverá o homem, mas de toda palavra que sai da boca de Deus" (cf. Dt 8, 3; Mt 4, 4; Lc 4, 4; antífona da comunhão do I Domingo da Quaresma).


A veneração do Cristo crucificado

127. O caminho quaresmal termina com o início do Tríduo Pascal, isto é, com a celebração da Missa In Cena Domini. No Tríduo pascal a Sexta-feira Santa, dedicada a celebrar a Paixão do Senhor, é o dia por excelência da "Adoração da santa Cruz".

Contudo, a piedade popular gosta de antecipar a veneração cultual da Cruz. De fato, durante todo o período da Quaresma, na sexta-feira que, por antiquíssima tradição cristã, é o dia em que se comemora a Paixão de Cristo, os fiéis orientam espontaneamente a sua piedade para o mistério da Cruz.

Contemplando o Salvador crucificado, eles entendem mais facilmente o significado da dor imensa e injusta que Jesus, o Santo e o Inocente, sofreu pela salvação do homem, e compreendem também o valor do seu amor solidário e a eficácia do seu sacrifício redentor.

128. As expressões de devoção a Cristo crucificado, muitas e variadas, adquirem especial relevo nas igrejas dedicadas ao mistério da Cruz ou nas quais são veneradas relíquias consideradas autênticas do lignum Crucis. De fato, a "descoberta da Cruz", que segundo a tradição se deu na primeira metade do século IV, com a subsequente difusão no mundo todo de veneradíssimas partículas, determinou um notável incremento do culto à Cruz.

Nas manifestações de devoção a Cristo crucificado, os elementos comuns da piedade popular como cânticos e orações, gestos como a exposição, o beijo, a procissão e a bênção com a cruz, entrelaçam-se de modo variado, dando lugar a práticas de piedade, às vezes preciosas por seu valor conteudístico e formal.

Entretanto, a piedade para com a Cruz tem muitas vezes necessidade de ser iluminada. Isto é, deve-se mostrar aos fiéis a essencial referência da Cruz ao evento da Ressurreição: a Cruz e o túmulo vazio, a Morte e a Ressurreição de Cristo são inseparáveis na narrativa evangélica e no projeto salvífico de Deus. Na fé cristã, a Cruz é expressão do triunfo sobre o poder das trevas e, por isso, é apresentada enriquecida com pedras preciosas e se tornou sinal de bênção seja quando é traçada sobre si próprio ou sobre outras pessoas e objetos.

129. O texto evangélico, singularmente detalhado na narrativa dos vários episódios da Paixão, e a tendência à especificação e à diferenciação própria da piedade popular fizeram com que os fiéis voltassem sua atenção também para aspectos particulares da Paixão de Cristo e, em seguida, fizessem deles objeto de devoções particulares: ao Ecce Homo, Cristo zombado, "com a coroa de espinhos e o manto de púrpura" (Jo 19, 5), que Pilatos mostra ao povo; às sagradas chagas do Senhor, sobretudo a ferida do lado e o sangue vivificador que daí jorrou (cf. Jo 19, 34); aos instrumentos da Paixão, tais como a coluna da flagelação, a escada do pretório, a coroa de espinhos, os cravos, a lança que o traspassou; ao santo sudário ou lençol da deposição.

Essas expressões de piedade, promovidas em algunas casos por pessoas eminentes em santidade, são legítimas. Entretanto, para evitar um fracionamento excessivo na contemplação do mistério da Cruz, é conveniente que se acentue o conjunto todo da Paixão, segundo a tradição bíblica e patrística.


A leitura da Paixão do Senhor

130. A Igreja exorta os fiéis à leitura frequente, individual e comunitária, da Palavra de Deus. Ora, não há dúvida de que entre as páginas bíblicas a narrativa da Paixão do Senhor tem um especial valor pastoral e, por isso, por exemplo, o Ritual da unção dos enfermos e sua assistência pastoral sugere que se leia, na hora da agonia do cristão, a narrativa da Paixão do Senhor, por inteiro ou algumas perícopes dela.

No tempo da Quaresma, o amor para com Cristo crucificado deverá levar as comunidades cristãs a preferir, sobretudo na quarta e na sexta-feira, a leitura da Paixão do Senhor.

Essa leitura, de grande significado doutrinal, chama a atenção dos fiéis seja por causa do conteúdo, seja por causa da forma narrativa, e provoca neles sentimentos de genuína piedade: arrependimento das culpas cometidas, pois os fiéis percebem que a Morte de Cristo aconteceu para a remissão dos pecados de todo o gênero humano e, portanto, também dos próprios; compaixão e solidariedade para com o Inocente injustamente perseguido; gratidão pelo amor infinito que Jesus demonstrou na sua Paixão para com todos os homens; empenho em seguir os exemplos de mansidão, paciência, misericórdia, perdão das ofensas, abandono confiante nas mãos do Pai, que Jesus deu com grande abundância e eficácia na sua Paixão.

Fora da celebração litúrgica, a leitura da Paixão poderá ser oportunamente "encenada", confiando aos vários leitores os textos correspondentes aos diferentes personagens; como também poderá ser intercalada por cânticos e momentos de silêncio meditativo.


Via Crucis

131. Entre as práticas de piedade com que os fiéis veneram a Paixão do Senhor poucas são tão queridas quanto a Via-Sacra. Por meio dessa prática de piedade os fiéis percorrem com afeto participativo o último trecho da caminhada feita por Jesus durante sua vida terrena; do Monte das Oliveiras, onde numa "propriedade chamada Getsêmani" (Mc 14, 32) o Senhor foi "tomado pela angústia" (Lc 22, 44), até o Monte Calvário, onde foi crucificado entre dois malfeitores (cf. Lc 23, 32), ao jardim onde foi deposto num túmulo novo, escavado na rocha (cf. Jo 19, 40-42).

132. A Via-Sacra é síntese de várias devoções surgidas na alta Idade Média: a peregrinação à Terra Santa, durante a qual os fiéis visitam devotamente os lugares da Paixão do Senhor; a devoção às "quedas de Cristo" sob o peso da cruz; a devoção aos "caminhos dolorosos de Cristo", que consiste na caminhada solene e processional de uma igreja a outra em memória dos percursos realizados por Cristo durante sua Paixão; a devoção às "estações de Cristo", isto é, aos momentos em que Jesus pára durante a caminhada rumo ao Calvário, porque obrigado pelos algozes, ou porque extenuado pelo cansaço, ou porque, movido por amor, procura estabelecer um diálogo com os homens e as mulheres que assistem à sua Paixão.

Na sua forma atual, atestada já na primeira metade do século XVII, a Via-Sacra, difundida sobretudo por São Leonardo de Porto Maurício (+ 1751), aprovada pela Sé Apostólica e enriquecida de indulgências, se compõe de quatorze estações.

133. A Via-Sacra é uma via traçada pelo Espírito Santo, fogo divino que ardia no peito de Cristo (cf. Lc 12, 49-50) e o impeliu rumo ao Calvário; e é uma via amada pela Igreja, que conservou a memória viva das palavras e dos acontecimentos dos últimos dias do seu Esposo e Senhor.

Na prática de piedade da Via-Sacra confluem também várias expressões características da espiritualidade cristã: a concepção da vida como caminho ou peregrinação; como passagem, através do mistério da cruz, do exílio terrestre à pátria celeste; o desejo de se conformar profundamente com a Paixão de Cristo; as exigências da sequela Christi (seguimento de Cristo), segundo a qual o discípulo deve caminhar atrás do Mestre, carregando diariamente a sua própria cruz (cf. Lc 9, 23).

Por tudo isso, a Via-Sacra é uma prática de piedade particularmente adequada para o tempo da Quaresma.

134. Para um frutuoso exercício da Via-Sacra podem ser úteis as seguintes indicações:
  • a forma tradicional, com suas quatorze estações, deve ser considerada como a forma característica dessa prática de piedade; entretanto, em algumas ocasiões, não é de se excluir a substituição de uma ou outra "estação" por outras que reflitam episódios evangélicos do caminho doloroso de Cristo, que não são considerados na forma tradicional;
  • em todo caso há formas alternativas de Via-Sacra, aprovadas pela Sé Apostólica ou publicamente usadas pelo Romano Pontífice: devem ser consideradas como genuínas, às quais se pode recorrer segundo a oportunidade;
  • A Via-Sacra é a prática de piedade relativa à Paixão de Cristo; entretanto, é oportuno que se conclua de tal maneira que os fiéis se abram à espera, cheia de fé e de esperança,  da ressurreição; a exemplo da parada na Anastasis, no final da Via-Sacra em Jerusalém, pode-se encerrar a prática de piedade com a memória da ressurreição do Senhor.
 135. Os textos para a Via-Sacra são inumeráveis. Foram compostos por Pastores movidos por sincera estima por essa prática de piedade, convencidos de sua eficácia espiritual; às vezes os autores são fiéis leigos, eminentes em santidade de vida ou em doutrina ou em dotes literários.

A escolha do texto, levando em conta as eventuais indicações dos Bispos, terá de ser feita tendo presente sobretudo a condição dos participantes à prática de piedade e o princípio pastoral de conciliar sabiamente continuidade e inovação. Em todo caso, de preferência usem-se textos nos quais ressoe, corretamente aplicada, a palavra bíblia e que sejam escritos numa linguagem nobre e simples.

Um desenvolvimento sábio da Via-Sacra em que hinos, silêncio, procissão e pausas reflexivas se integrem de modo equilibrado, contribui para a consecução de frutos espirituais dessa prática de piedade.


A Via-Matris

136. Associados ao projeto salvífico de Deus (cf. Lc 2, 34-35), Cristo crucificado e a Virgem das Dores são também associados na Liturgia e na piedade popular.

Como Cristo é o "homem das dores" (Is 53, 3), por meio do qual quis Deus "reconciliar consigo todos os seres, tanto na terra como no céu, estabelecendo a paz (...) por seu sangue derramado na cruz" (Cl 1, 20), assim Maria é a "mulher da dor", que Deus quis associar a seu Filho como mãe e participante da sua Paixão (socia passionis).

Desde os dias da infância de Cristo, a vida da Virgem, envolvida na rejeição da qual seu Filho era objeto, transcorreu toda ela sob o signo da espada (cf. Lc 2, 35). Entretanto, a piedade do povo cristão viu na vida dolorosa da Mãe sete episódios principais e os denominou de as "sete dores" da bem-aventurada Virgem Maria.

Assim, no modelo da Via-Sacra, surgiu a prática de piedade da Via Matris dolorosae ou simplesmente Via Matris, também esta aprovada pela Sé Apostólica. Formas embrionárias da Via Matris foram observadas desde o século XVI, mas, em sua forma atual, ela não remonta a além do século XIX. A intuição fundamental é considerar toda a vida da Virgem, desde o anúncio profético de Simeão (cf. Lc 2, 34-35) até a morte e sepultura do Filho, como um caminho de fé e de dor: caminho articulado exatamente em sete "estações", correspondentes às "sete dores" da Mãe do Senhor.

137. A prática de piedade da Via Matris se harmoniza bem com alguns temas próprios do itinerário quaresmal. De fato, sendo a dor da Virgem causada pela rejeição de Cristo por parte dos homens, a Via Matris remete constante e necessariamente ao mistério de Cristo Servo Sofredor do Senhor (cf. Is 52, 13-53, 12), rejeitado por seu povo (cf. Jo 1, 11; Lc 2, 1-7; 2, 34-35; 4, 28-29; Mt 26, 47-56; At 12, 1-5). E remete também ao mistério da Igreja: as estações da Via Matris são etapas do caminho de fé e de dor no qual a Virgem precedeu a Igreja e que esta deverá percorrer até o fim dos séculos.

A Via Matris tem como expressão máxima a Pietà, tema inesgotável da arte cristã desde a Idade Média.


Semana Santa

138. "Na Semana Santa a Igreja celebra os mistérios da salvação levados a cumprimento por Cristo nos últimos dias da sua vida, a começar pela sua entrada messiânica em Jerusalém."

O envolvimento do povo nos ritos da Semana Santa é grande. Alguns deles trazem ainda os traços da sua proveniência dentro do âmbito da piedade popular. Entretanto, aconteceu que, durante os séculos, se produziu, nos ritos da Semana Santa, uma espécie de paralelismo celebrativo, segundo o qual há como que dois ciclos com impostação diferente: um rigorosamente litúrgico, o outro caracterizado por particulares práticas de piedade, especialmente as procissões.

Essa diversidade deveria ser orientada para uma correta harmonização das celebrações litúrgicas e das práticas de piedade. Relativamente à Semana Santa, de fato, a atenção e o amor para com as manifestações de piedade tradicionalmente caras ao povo devem levar à necessária estima das ações litúrgicas, certamente sustentadas pelos atos de piedade popular.


Domingo de Ramos
(Ramos de palmeira, oliveira ou outros)

139. "A Semana Santa começa no Domingo de Ramos 'da Paixão do Senhor' que une ao mesmo tempo o triunfo régio de Cristo e o anúncio da Paixão."

A procissão que comemora a entrada messiânica de Jesus em Jerusalém tem caráter festivo e popular. Os fiéis gostam de guardar em suas casas e às vezes nos lugares de trabalho os ramos de palmeira, de oliveira ou de outras árvores que foram benzidos e levados na procissão.

Entretanto, é preciso que os fiéis sejam instruídos sobre o significado da celebração, para que seu sentido seja compreendido. Por exemplo, é oportuno insistir em que aquilo que é verdadeiramente importante é a participação na procissão e não somente a busca dos ramos de palmeira ou de oliveira; que estes não devem ser guardados como amuleto, ou somente para fins terapêuticos ou apotropaicos, isto é, a fim de manter distantes os espíritos maus e afastar das casas e dos campos os prejuízos causados por eles, o que poderia ser uma forma de superstição.

Tais ramos devem ser conservados antes de tudo como testemunho da fé em Cristo, rei messiânico, e na sua vitória pascal.

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013

Para os Pequeninos do Jardim da Infância

O Blog está com uma nova conta no 4shared. E hoje está disponível o livro Para os Pequeninos do Jardim da Infância, que é um programa de catequese para crianças não alfabetizadas. Clique aqui para fazer o download.