Páginas

sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

Sermão do Bem-Aventurado J.H. Newman para o Dia de Natal

Desejo a todos os leitores do blog um Feliz Natal.
Para honrar o espírito natalino, publico abaixo um belo sermão do Cardeal Newman.
Tradução de Rafael Carneiro Rocha

“O anjo disse-lhes: não temais, eis que vos anuncio uma boa nova que será alegria para todo povo: hoje vos nasceu na cidade de Davi um Salvador, que é o Cristo Senhor (Lc 2,10-11)”.
Hoje, humildade e alegria são as duas principais lições que nos são ensinadas na grande festa que celebramos. Entre todos os outros dias, hoje está mais claramente diante de nós uma excelência celestial. O olhar de Deus aceita a alegria pela qual a maioria dos homens aloca, ou poderia alocar, às as suas humildes vidas privadas. Se consultarmos os escritos dos historiadores, filósofos e poetas deste mundo, seremos levados a pensar na felicidade humana; nossos corações e mentes serão conduzidos para grandiosas e respeitáveis trajetórias, em que talentos poderosos são despendidos em estranhas aventuras, lutas memoráveis e grandes destinos. Deveremos, então, considerar que o curso mais elevado da vida é a mera busca, e não o gozo do bem.
Porém, quando pensamos na Festa de hoje e naquilo que comemoramos, uma nova e muito inusitada cena se descortina diante de nós. Primeiramente, somos lembrados de que, embora esta vida deva ser sempre uma vida de trabalho e de esforço, ainda assim, propriamente falando, nós não temos de procurar por nosso maior bem. O bem é encontrado. Ele é trazido para perto de nós, na descida do Filho de Deus, do seio do Pai para este mundo. Ele está guardado na terra, entre nós. Os homens não precisam mais do ardor de suas mentes para buscar aquilo que, luxuosamente, pensam ser os bens principais; não precisam mais vaguear perigosamente pela busca de uma desconhecida bem-aventurança que os seus corações naturalmente aspiram, como era feito nos tempos pagãos. As Escrituras falam para eles e para todos: “A vós”, ela diz, “nasceu hoje, na cidade de Davi um Salvador, que é o Cristo Senhor”.
Os homens nem precisam, ainda, buscar por qualquer dessas coisas que este mundo vão chama de grandes e nobres. Cristo escolhe para Si mesmo aquilo  que o mundo despreza.
A Festa da Natividade nos dá, portanto, duas lições – ao invés da ansiedade e do desânimo, e ao invés da busca fatigante por grandes coisas – sermos alegres e felizes; e perseverarmos nesses estados diante das circunstâncias obscuras e ordinárias da vida, às quais o mundo opta por ignorar, atribuindo-lhes desprezo.
Consideremos isso mais profundamente, assim como está contido na graciosa narrativa das Escrituras.
1. Em primeiro lugar, o que lemos pouco antes da cena da Natividade? Que havia certos pastores vigiando o seu rebanho, de noite, quando anjos lhes apareceram. Por que os exército celestial deveria aparecer para esses pastores? O que havia neles que atraiu a atenção dos Anjos e do Senhor dos Anjos? Eram esses pastores cultos, distintos ou poderosos? Nada do que é dito poderia nos fazer pensar assim. Fé, podemos dizer com segurança, esses homens, ou alguns deles, tinham, pois para quem tem, mais será dado; mas ainda não há nada para demonstrar que eles eram mais santos e mais iluminados do que os outros bons homens de sua época que esperavam pela consolação de Israel. De fato, não há nenhuma razão para supor que eles eram melhores do que seus iguais de classe, pessoas simples e tementes a Deus, mas sem grandes avanços nas práticas de piedade ou em outras formas do costume religioso. Por que, então, eles foram escolhidos? Justamente por causa de suas pobrezas e obscuridades. Deus, Todo-Poderoso, olha com uma maneira especial de amor e de afeto sobre os humildes. Talvez, esse homem, uma criatura caída, destituída e dependente, esteja mais em seu lugar apropriado quando está em circunstâncias humildes. O poder e a riqueza, embora inevitáveis no caso de alguns, são apêndices artificiais para o homem, enquanto tal. Existem comércios e vocações que são inconvenientes, embora necessários. Enquanto lucramos por eles e honramos aqueles que lhes são engajados, sentimo-nos contentes, porque eles não são nossos (como nos sentimos gratos e respeitosos para com a profissão de um soldado). Do mesmo modo a grandeza de Deus é menos aceitável do que a obscuridade. Isso nos torna menores.
Os pastores, então, foram escolhidos em razão da sua humildade para serem os primeiros a saber da natividade do Senhor, um segredo que nenhum príncipe deste mundo conheceu.
E que contraste nos é apresentado quando levamos em conta quais eram os mensageiros do Senhor para eles! Os Anjos, que são excelentes por sua força, cumpriram a vontade de Deus para os pastores. Aqui as maiores e as menores criaturas racionais de Deus estão reunidas. Um grupo de homens pobres, engajados numa vida árdua, expostos ao frio e à escuridão da noite, assistindo os seus rebanhos, com o intuito de assustar animais de rapina ou ladrões; eles – sem pensar em nada além das coisas terrenas, e das peculiaridades de suas ovelhas, mantendo os cães ao seu lado enquanto ouviam ruídos sobre a planície, supostamente do raiar do dia – de repente são encontrados por visitantes que jamais conceberiam. Nós sabemos sobre o alcance limitado do pensamento e dos objetos cotidianos daqueles homens expostos a uma vida de calor, frio, umidade, fome, nudez e servidão. Eles deixam de importar muito para qualquer coisa, porque basta viver de forma mecânica, sem coração e, mais ainda, sem reflexão.
Para homens tão arraigados pelas circunstâncias, apareceu-lhes o Anjo para abrir as suas mentes e ensiná-los a não se sentirem abatidos ou em cativeiro, em razão de sua pequenez para o mundo. Ele apareceu como que para mostrar-lhes que Deus havia escolhido os pobres deste mundo para serem herdeiros do Seu reino, para assim honrar-lhes a sorte. “Não temais”, disse ele, “eis que vos anuncio uma boa nova que será alegria para todo povo: hoje vos nasceu na cidade de Davi um Salvador, que é o Cristo Senhor”.

2. E agora nos vem uma segunda lição que, como eu disse, deve ser adquirida nessa Festa. Em seu aparecimento aos pastores, o Anjo muito honrou a humildade; em seguida, ele nos ensinou, por sua mensagem, a alegria. Ele revelou boas novas que estão muito acima deste mundo, como que para equalizar o alto e o baixo, o rico e o pobre. Ele disse: “Não temais”. Como vocês devem observar, trata-se de uma direção bastante frequente nas Escrituras, como se os homens precisassem dessa garantia para dar conta da mensagem, especialmente na presença de Deus. O Anjo disse “Não temais” quando viu o alarme que sua presença causou entre os pastores. Mesmo uma maravilha menor teria, razoavelmente, assustado aqueles homens. Portanto, o Anjo disse: “Não temais”. Por causa de nossa consciência pesada, temos um medo nato de qualquer mensageiro vindo de outro mundo. Ensimesmados, creditamos um prenúncio do mal à voz do mensageiro. Além do mais, percebemos tão pouco o mundo invisível que a apresentação perturbadora do Anjo faria com que a nossa razão apelasse para a zona de conforto da incredulidade. Assim, por um ou outro motivo, os pastores tiverem muito medo quando a glória do Senhor resplandeceu ao redor deles. E o Anjo disse: “Não temais”. Um pouco de religião nos faz medrosos; quando um pouco de luz é derramado em nossa consciência, há uma escuridão visível; nada além de imagens terríveis e miseráveis; a glória do Senhor alarma em seu resplandecer. Sua Santidade, o alcance e as dificuldades de seus mandamentos, a grandeza de Seu poder e a fidelidade de Sua palavra assustam o pecador, e os outros homens vendo-o com medo logo pensam que a religião é o motivo de perturbação. Mas isso não é ser religioso. Os homens podem chamar de religioso a alguém que está apenas arrasado pela consciência. Mas a religião mesma, longe de inculcar alarme e terror tem sua voz nas palavras do Anjo, “Não temais”; porque tal é a misericórdia do Senhor que, Todo-Poderoso, derramou sobre nós a Sua glória consoladora. É um glória de consolo, pois o esplendor de Deus se reflete na face de Cristo (II Cor 4,6). Assim o arauto celestial temperou o brilho demasiadamente deslumbrante do Evangelho naquele primeiro Natal. A Glória de Deus primeiramente alarmou os pastores, por isso foram acrescentadas as boas novas para lhes inspirar um temperamento mais benéfico e feliz. Em seguida, eles se alegraram.
“Não temais”, disse o Anjo, “eis que vos anuncio uma boa nova que será alegria para todo povo: hoje vos nasceu na cidade de Davi um Salvador, que é o Cristo Senhor. E subitamente ao Anjo se juntou uma multidão do exército celeste, que louvava a Deus e dizia: Glória a Deus no mais alto dos céus e na terra paz aos homens, objetos da benevolência divina”. Tais foram as palavras que os espíritos abençoados, que ministram Cristo e Seus Santos, falaram naquela noite graciosa para os pastores, para arrancá-los de seus modos frios e famintos em prol de uma grande alegria. A eles foi ensinado que cada um é objeto do amor de Deus, como se eles fossem os maiores homens da terra; ou melhor ainda, para eles, a boa nova que acontecia naquela noite foi primeiramente anunciada. O Filho, então, nascia para o mundo. Nascimentos são contados para pessoas bem queridas, para aqueles que amamos, para aqueles que se simpatizam conosco e não para estranhos. Como poderia Deus Todo-Poderoso ser mais gracioso do que mostrando, de forma impressionante e antecipada para os seus amigos pequeninos aquele grande e alegre segredo? Ele havia confidenciado o segredo para pastores que guardavam os seus rebanhos durante a noite.
O Anjo foi o primeiro a dar uma lição combinada de humildade e alegria; mas uma outra, infinitamente maior, está por trás do evento em si, para o qual foram dirigidos os pastores: o nascimento mesmo do Menino Jesus. Isso foi insinuado pelos Anjo nas seguintes palavras: “Isto vos servirá de sinal: achareis um recém-nascido envolto em faixas e posto numa manjedoura”. Indubitavelmente, quando os pastores ouviram que nasceu para o mundo o Cristo Senhor, imaginaram que teriam de procurá-lo nos palácios reais. Eles não seriam capazes de imaginar que Ele havia se tornado um semelhante, ou que poderiam se aproximar Dele; portanto, o Anjo advertiu-os de onde Ele seria encontrado, não apenas como um sinal, mas como uma uma lição também.
“Falaram os pastores uns com os outros: vamos até Belém e vejamos o que se realizou e o que o Senhor nos manifestou”. Caminhemos, nós, também com eles, para contemplar o segundo e mais grandioso milagre para o qual o Anjo direcionou os pastores, a Natividade de Cristo. São Lucas diz sobre a Virgem Maria: “E deu à luz seu Filho primogênito, e envolvendo-o em faixas, reclinou-o num presépio; porque não havia lugar para eles na hospedaria”. Quão maravilhoso sinal isso é para todo mundo e, portanto, o Anjo repetiu-o aos pastores: “Achareis um recém-nascido envolto em faixas e posto numa manjedoura”. O Deus dos céus e da terra, o Verbo Divino, glorificado por seu Pai Eterno desde o início, nasce neste mundo de pecado como uma criancinha. Ele, assim como agora, está deitado nos braços de Sua mãe, ao que tudo indica desamparado e impotente. Ele foi envolvido por Maria em faixas infantis para ser colocado a dormir numa manjedoura. O Filho do Deus Altíssimo, que havia criado os mundos, se fez carne, embora permanecendo aquilo que sempre fora. Ele se fez carne, tão verdadeiramente como se tivesse deixado de ser o que era para se transformar em carne. Ele submeteu-se à descendência de Maria, tomando-se pelas mãos de uma mortal, para ter o olhar fixo de uma mãe sobre Ele e para ser estimado no seio de uma mãe. A filha de um homem tornou-se a Mãe de Deus – para ela, de fato, um dom inefável da graça, mas para Ele quanta condescendência! Que esvaziamento de Sua glória para tornar-se homem! E não apenas um bebê indefeso. Embora isso seja uma humilhação suficiente, Ele ainda herdou, tão como era possível para uma alma sem pecado, todas as enfermidades e imperfeições de nossa natureza. Quais foram os Seus pensamentos, se é que podemos nos aventurar a utilizar esse tipo de linguagem ou admitir tal reflexão sobre o Infinito, quando os sentimentos, as tristezas e as necessidades humanas se tornaram Suas? Quão misterioso é o Filho de Deus tornar-se homem! Contudo, na proporção do mistério estão a sua graça e misericórdia. Quão grande é o fruto que resulta da graça!
Perseveremos na contemplação do mistério, e digamos que todas as consequências de tão maravilhosa dispensa são enormes. A encarnação e a morte do Filho Eterno nos manifestam um mistério grandioso e uma graça avassaladora. Avisaram-nos que o efeito disso nos tornou como um Serafim? Surpreenderia-nos, após a notícia do Anjo para os pastores, que estávamos a ascender tão alto do mesmo modo com que Ele se rebaixou? Isso é o efeito da graça, na medida mesma em que essas palavras sejam piedosamente ditas. Nós permanecemos homens, mas não meros homens. Somos dotados com a medida de todas aquelas perfeições que Cristo tem em plenitude. Cada um, em seu próprio grau, participa tão plenamente da natureza divina de Cristo, que a única razão (por assim dizer) pela qual os Seus santos não são como Ele, é que aqueles são criaturas e o Senhor é o Criador; mas ainda assim eles são toda a plenitude possível sem que seja violada a incomunicável majestade do Altíssimo. Certamente, em proporção à Sua glória está o Seu poder de glorificar; de modo que podemos dizer que por Ele somos tudo, menos deuses – ainda que estejamos infinitamente abaixo do adorável Criador – e podemos dizer ainda que, verdadeiramente, devemos ser superiores a todas as outras criaturas do mundo; superiores ainda aos Anjos e Arcanjos, Querubins e Serafins – não aqui, ou em nós mesmos, mas no céu, e em Cristo – Cristo já tendo ascendido acima de todas as criaturas, tendendo para mesma bem-aventurança do Altíssimo, nos dá aqui esse penhor de Sua glória e a plenitude do que virá depois.
Se todas essas coisas são assim, certamente a lição de alegria que a Encarnação nos dá é tão impressionante como a sua lição de humildade. São Paulo assim leciona em sua epístola aos filipenses: “Dedicai-vos mutuamente a estima que se deve em Cristo Jesus. Sendo ele de condição divina, não se prevaleceu de sua igualdade com Deus, mas aniquilou-se a si mesmo, assumindo a condição de escravo e assemelhando-se aos homens (Fil 2, 5-7)”. Por sua vez, São Pedro nos dá a lição da alegria: “Este Jesus vós o amais, sem o terdes visto; credes Nele, sem o veres ainda, e isto é para vós a fonte de uma alegria inefável e gloriosa, porque vós estais certos de obter, como preço de vossa fé, a salvação de vossas almas (I Ped 1, 8-9)”.
Tomem essas reflexões para vós, meus irmãos. Levem-na para suas casas neste dia de Festa, para as suas família e para a sociedade. É um dia de alegria: é bom ser feliz – e errado é agir de forma contrária. Por um dia, podemos ser livres do fardo de nossas consciências poluídas para regozijarmos nas perfeições de nosso Salvador Jesus Cristo, sem pensarmos em nós mesmos e nas nossas miseráveis impurezas. Contemplemos Sua glória, Sua justiça, Sua pureza, Sua majestade e Seu amor transbordante. Podemos regozijar-nos no Senhor e vê-lo em todas as Suas criaturas. Podemos desfrutar de sua generosidade temporal e participar das coisas agradáveis na terra com Ele em nossos pensamentos; podemos regozijar-nos com os nossos amigos por causa Dele, amando-os mais especialmente, porque Ele os ama.
“Deus não nos destinou para a ira, mas para alcançar a salvação por Nosso Senhor Jesus Cristo. Ele morreu por nós, a fim de que nós, quer em estado de vigília, quer de sono, vivamos em união com Ele (I Tes 5, 9-10)”. Busquemos a graça de um coração alegre, e um temperamento de doçura, gentileza e clareza da mente, porque caminhamos na luz e na graça de Deus. Rezemos ao Senhor para que Ele nos dê um espírito de amor sempre abundante e florescente, que domine e varra todos os dissabores da vida por sua própria riqueza e força. Assim, que sejamos unidos a Ele, a fonte e o centro de toda a misericórdia, bondade e alegria.