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sábado, 15 de setembro de 2012

A música na Catequese

Capítulo do livro A Pedagogia do Catecismo, do Monsenhor Álvaro Negromonte



O CANTO

É o canto na igreja, antes de tudo, um ato do culto. Natural manifestação dos sentimentos fortes o canto foi, de todos os tempos, considerado dos melhores meios de louvar a Deus. 

Nas visões de Isaías e de São João (1), os anjos cantam nos céus a glória do Senhor. No presépio de Belém, cantavam o "Glória a Deus nas alturas e paz na terra aos homens de boa vontade" (2).

Na Lei antiga, o canto era comum nas manifestações religiosas do povo de Israel. Os salmos ficarão perenes modelos de louvor a Deus. O próprio Jesus Cristo tomou parte nesses hinos sagrados, como nos mostra a passagem de São Mateus (3), em que Nosso Senhor, depois da instituição da Eucaristia, "tendo cantado o hino, saiu para o monte das Oliveiras".

O costume cristão - Os primeiros cristãos cantavam, acostumados que estavam às reuniões religiosas judaicas, em que os hinos se mesclavam às leituras e preces. São Paulo fez grande cabedal dos cânticos espirituais, como elemento da verdadeira alegria em que devem viver os discípulos do Senhor. É muito importante o texto e merece vir na íntegra: "Não vos embriagueis com vinho, no que está a luxúria, mas enchei-vos do Espírito Santo falando entre vós com salmos e hinos e cânticos espirituais, cantando e salmodiando ao Senhor em vossos corações" (4). E o apóstolo não somente aconselhava, mas fazia. Os "Atos dos Apóstolos" no-lo mostram açoitado e lançado à prisão juntamente com Silas, e os dois, alta noite, rezando e cantando os louvores de Deus (5).

De como os cristãos guardaram esse costume há, entre outros, o testemunho de Plínio, na célebre carta ao Imperador Trajano, dizendo que os cristãos, "em dias determinados, costumam reunir-se antes da aurora e cantam, alternando, um hino a Cristo que é o seu Deus".

Vantagens - Aos hinos religiosos deu sempre a Igreja grande valor. Para vermos a grande estima em que eram tidos, basta lermos o que lhes atribuiu o grande Santo Ambrósio: "A salmodia é a bênção do povo, a ação de graças da multidão, a alegria da piedosa assembleia, a linguagem de todos. É a voz da Igreja, uma profissão de fé suave, porém enérgica, a adoração viril dos fortes, a felicidade dos corações livres, a exultação dos que estão alegres. Apazigua a cólera, afasta a tristeza e acalma a dor". Era por isto que Santo Agostinho não concebia "numa assembleia de fieis ocupação melhor, mais proveitosa para as almas e mais agradável a Deus, do que o canto dos salmos em comum". É que o grande pecador de outrora tinha chorado ao ouvir ressoarem os cânticos na igreja: "as vozes encantavam os meus ouvidos e tua verdade ia se infiltrando em meu coração, que se enchia de piedade, enquanto meus olhos se arrasavam de lágrimas: eu me sentia feliz" (6).

Só assim se explica que os mais notáveis doutores da Igreja se ocupassem em compor hinos tão cheios de unção para tocar os corações, como de doutrina para ensinar a verdade. E de que não trabalharam em vão temos a certeza no florescimento do culto daquelas eras.

São realmente palpáveis as vantagens do canto na igreja. É uma oração pública, feita pela assembleia; e das melhores orações, pois é sabido que quem canta reza duas vezes. Eloquente profissão de fé, afirmação solene dos sentimentos religiosos, excelente meio de combate ao respeito humano, é ainda arma de apostolado de primeira ordem. Às vezes, um coração se deixa mais facilmente tocar e converter pelos acentos do canto que pela voz dos pregadores. É que o canto comove com mais facilidade. E a beleza que dão os cânticos às funções sagradas? E o entusiasmo de que se tomam os fieis que cantam? Quem pode ouvir sem grande exaltação dos sentimentos cristãos uma igreja cheia de povo cantando os nossos belos hinos religiosos?

Para a catequese - Ora, seria de todo em todo descabido não nos valermos do canto em nossos Catecismos. Além de todas as vantagens apresentadas, podemos ver no canto um elemento precioso da disciplina. A necessidade da ordem, da uniformidade, das entradas a tempo (forçando a atenção), do esforço da memória, faz do canto um auxiliar de primeira ordem na formação da criança. Com o canto se consegue muito facilmente o silêncio na igreja, isto é, que as crianças não conversem. Tive sempre o costume de fazer a entrada e saída das crianças na igreja com cânticos, para evitar desordem. E consegui. Para conseguir o silêncio, quando se estabelece uma desordem, nada melhor que um cântico; segue-se um repouso dos espíritos e o silêncio.  O canto descansa as crianças, facilitando a atenção. Donde a vantagem de entremear a aula com cânticos. Não devemos esquecer que as crianças gostam de cantar; e é do bom mestre aproveitar os gostos infantis. Servem igualmente os cânticos eclesiásticos para contrabalançar as canções inconvenientes, infelizmente divulgadas entre o povo. São Jerônimo nos conta como as melodias cristãs são tão populares que facilmente "os que saíam ao campo ouviam as aleluias do camponês, os hinos do segador e os salmos dos trabalhadores". Têm ainda os cânticos a finalidade de instrução que não temos sabido aproveitar devidamente.

Qualidade dos cânticos - Para lograrmos todos esses proveitos, havemos de empregar um bom critério de escolha.

Mais do que ninguém as crianças gostam dos cânticos bonitos. Pedem para cantá-los de preferência. Entusiasmam-se cantando-os. E lhes vamos educando o senso estético e afastando das igrejas essas cantigas monstruosas com que, às vezes, se deforma o culto católico.

As melodias devem ser simples para as crianças aprenderem sem fadiga e guardarem sem dificuldade. As melodias difíceis têm o inconveniente de se prestares a deformações, que não raro, as transtornam por inteiro.

Devem ser religiosas: músicas sacras que recolham, elevem, e que não dissipem. Música que dê vontade de rezar, e não de dançar.

Não é necessário que todo cântico seja instrutivo. Deve ser também oração; louvor, agradecimento, propiciação e súplica. Mas é preciso empregarmos os cânticos como meio de instrução. Há uns Catecismos em versos e música, de duvidoso valor como estão, mas excelentes como ideia, para ser bem realizada. 

Versos simples, fáceis, correntes, contendo a boa doutrina, em música, serão um ótimo auxiliar sobretudo para a fixação.

Enfim, qualidade essencial, sejam os cânticos reais. Exprimam sentimentos que possam ser de todos, como cristãos; e não o arrebatamento pessoal de um místico, ou o palavrório insensato de um poetastro.

Há um hinozinho que diz:
"Quem me dera na pátria ditosa
"Ir eu já contemplar a Jesus..."
(Tenho minhas dúvidas quanto à sinceridade do autor;
não tenho dúvida alguma quanto aos cantores...)

Outro hino:
"Meu coração delira
"Em êxtases de amor..."
(Ora, andam em geral os corações tão longe de êxtases...)

Para não multiplicarmos as citações - o que seria muito fácil, porque os hinos litúrgicos são verdadeiros modelos - lembro apenas o "Lauda, Sion", de Santo Tomás de Aquino. Mesmo em português há excelentes exemplares. O nosso "Queremos Deus", o "Cantemos ao Amor dos amores", o popular "O meu coração", o "Eu vos adoro" (para antes e depois da comunhão) são dos melhores.

Sabidas as qualidades de um bom hino, resta escolher os melhores. Para a letra, convoco os poetas cristãos. Não se julguem malbaratados com a tarefa. Vejam santos e doutores como Efrém, Ambrósio, Hilário, Gregório, Bernardo e Tomás de Aquino, entregues à composição de hinos religiosos, que ainda hoje vivem na Igreja, para gáudio das almas cristãs (7). Para a música a dificuldade é talvez ainda maior: o critério da escolha é mais raro e o gosto popular mais corrompido.

Nos colégios católicos - Aqui, como em muitos outros pontos, poderão prestar relevantes serviços os Colégios católicos. Neles o canto eclesiástico há de ter um lugar de honra, como nos Seminários. É muito mais fácil educar o gosto dos alunos, conseguir que todos cantem, ordinariamente, nas funções religiosas. O coro fica para as solenidades maiores, e será o mais numeroso possível. Seria lastimável que os alunos de nossos Colégios não soubessem todos a Missa de Angelis, uma em canto polifônico, os hinos litúrgicos mais vulgares (mesmo para uso extralitúrgico), algumas ladainhas...

Além do mais, os Colégios católicos têm obrigação de fornecer às paróquias os melhores elementos, auxiliares da Ação Católica, os mais eficientes soldados. É por aí que se deve começar a educação para a boa música eclesiástica, o Canto Gregoriano, que deve ser considerado uma obrigação dos colégios. Este fermento levedará as massas.

Também os Grupos Escolares, pelas suas facilidades, poderão contribuir muito nesta educação, ensaiando com os alunos boas músicas religiosas, que podem ser cantadas nas festas escolares, nas aulas, nas cerimônias religiosas da paróquia. Isto vai obrigando o povo a tomar parte nos cânticos da Igreja.

Modo de ensinar - Antes de tudo é necessário essencialmente, que as crianças saibam o que cantam. Portanto, antes de ensaiar, ler e explicar o texto, fazendo-o decorar ou escrevendo no quadro-negro. Só assim se evitarão as deformações, às vezes tão ridículas e absurdas. As crianças devem cantar sempre de pé. Os cantos não devem ser longos, e, se, mesmo breves, as crianças mostram desagrado, deve-se mudar o canto ou o exercício.

Antes de começar o ensaio de um cântico novo, é preciso cantá-lo para que os discípulos o ouçam; depois então se começa a ensaiar. O ensaio pode ser feito aos poucos, por frases musicais. É bom reunir as crianças que têm melhor voz, para formar um núcleo irradiador. É necessário fazer calar os que são desentoados, em geral de grande boa vontade... O uso do harmônio, do piano ou do violino facilita muito os ensaios.

Para os ensaios, a maior exigência quanto à perfeição da melodia. Aí, as crianças é que devem acompanhar o harmônio; mas nas funções é o harmônio que deve seguir as crianças... A experiência nos ensina que o interesse dos discípulos é proporcionado ao dos mestres. As catequistas devem cantar. O ensaio vai muito mais fácil se todas as catequistas cantam voltadas para os alunos, gesticulando ao ritmo dos cânticos. As catequistas devem saber bem o que ensinam, sendo de bom aviso fazerem também os seus ensaios em comum, sob uma regência competente e caprichosa. Nas funções elas cantarão com as crianças, não timidamente, às escondidas (o que seria um desgraçado exemplo do respeito humano), mas com simplicidade e desembaraço, como quem presta a Deus uma homenagem. Somente assim venceremos esta triste distância que separa o entusiasmo dos ensaios da frieza dos cantos nas solenidades. Aqui está uma grande responsabilidade das catequistas!

Sempre achei de vantagem, antes do cântico, anunciar o sentido geral: "Vamos cantar agora um hino de adoração ao Santíssimo Sacramento". Isto, sobre prender a atenção ao tema, lembra que se trata de uma oração, e chama aos mesmos sentimentos com que a oração deve ser feita. Porque o canto pode também dissipar e inclinar à vaidade. Mas, desde os ensaios, se procura sensivelmente levá-lo aos verdadeiros fins.

Deste precioso auxiliar da catequese popular, infelizmente tão desprestigiado no Brasil, devemos lançar mão com inteligência, para nos assegurarmos maior proveito.

segunda-feira, 10 de setembro de 2012

Tempo Livre: A Base da Cultura

Confira o primeiro capítulo, em português, do livro “Leisure – The basis of culture”, de Josef Pieper. Trechos desse livro, incluindo o primeiro capítulo na íntegra, estão disponíveis no Google Books. Clique aqui para ter acesso a essa versão em língua inglesa da obra.

Tradução: Rafael Carneiro Rocha

Porém os deuses, piedosos dos seres humanos – uma raça nascida para o labor – concederam-lhes festas em honras às divindades, como meio dos homens aliviarem-se por um tempo de suas fadigas; desse modo, aos homens foram concedidas as Musas, sendo Apolo e Dionísio os senhores delas. Portanto, após a companhia restauradora dos deuses, os homens deverão retornar aos seus honrados afazeres.
Platão

Parai, disse ele, e reconhecei que sou Deus
Salmo 45

I

Poderíamos começar, como os mestres escolásticos, com uma objeção: videtur qued non… “Parece não ser verdadeiro que…”

Ei-la: Parece que numa época como esta presente (o livro foi publicado inicialmente na Alemanha, poucos anos após a II Guerra Mundial), em comparação a todas as épocas, não é atual falar de “tempo livre”. Estamos engajados em reconstruir nossa casa e nossas ocupações estão inteiramente preenchidas. Todos os nossos esforços não deveriam ser direcionados exclusivamente para a finalização dessa obra?

Esta não é uma pequena objeção. Porém, há uma boa refutação para ela. Hoje, “construir nossa casa” implica não apenas em assegurar-nos a sobrevivência imediata, mas colocar em ordem toda a nossa herança moral e intelectual. E, antes de que apresentemos um detalhado plano de ação para isso, nosso recomeço civilizacional, ou refundação, demanda imediatamente por… uma defesa do “tempo livre”.

Pois, quando consideramos as fundações da cultura ocidental (seria precipitado assumir que nossa refundação executar-se-ia pelo espírito “ocidental”? De fato, este é o pressuposto que está colocado em questão hoje), uma dessas fundações é o “tempo livre”. Podemos ler sobre isso no primeiro livro da Metafísica de Aristóteles. A própria história do significado da palavra carrega consigo algo elucidativo. A palavra grega para “tempo livre” (σχoλ´η) é a origem do termo em latim scola que, em português, significa escola. O nome dessas instituições de educação e aprendizagem significa “tempo livre”.

Obviamente, o significado original do conceito de “tempo livre” tem sido praticamente esquecido em nossa cultura do “trabalho total”. Para que possamos ser bem sucedidos em compreender realmente o que o “tempo livre” é, teremos de dialetizá-lo com a ênfase exagerada que dedicamos ao mundo do trabalho. "O indivíduo não trabalha apenas para viver, mas vive pela causa de seu próprio trabalho", esta sentença de Max Weber faz muito sentido para nós. É difícil que reconheçamos como isso é uma inversão na própria ordem das coisas.

E como seria nossa resposta para esta sentença: “Trabalhamos para garantir o tempo livre”? Neste caso, hesitaríamos em dizer que o mundo foi realmente virado de cabeça para baixo? Essa afirmação não parece imoral para o homem e a mulher do mundo do “trabalho total”? Isso não é um ataque aos princípios básicos da sociedade humana?
De qualquer forma, não fui em quem forjou aquela sentença para demonstrar algo. Aquela afirmação foi feita por Aristóteles. Sim, Aristóteles: o sóbrio e o árduo realista, e o fato de que disse aquilo concede à sentença um significado especial. O que ele diz, numa tradução mais literal, seria: “Nós não estamos em tempo livre a fim de que estejamos em tempo livre”. Para os gregos, “não estar em tempo livre” era a palavra que designava o mundo do trabalho diário; e isto não era um indicativo apenas do “corre-corre” das nossas labutas, mas o trabalho em si mesmo. A língua grega tinha sua própria forma negativa para expressar o termo (´α−σχoλ´ια), do mesmo modo que o latim (neg-otium, “não-ócio”).

O contexto não apenas daquela sentença de Aristóteles, mas de uma outra deste mesmo autor em sua “Política” (quando ele declara que o eixo pelo qual todas as coisas se voltam é o “tempo livre” – Política VII, 3 (1337b33), demonstra que tais noções não foram consideradas extraordinárias, mas evidentes por si mesmas: os gregos provavelmente não compreenderiam nossas máximas sobre “trabalhar pela causa do trabalho”. Poderia isso implicar no fato de que as pessoas de nossa época não conseguem mais ter um acesso direto ao significado original de tempo livre?

De qualquer forma, poderíamos, é claro, propor uma objeção para Aristóteles. Afinal, quão a sério poderemos tomá-lo? Nós podemos admirar os antigos, mas isto não significa que sejamos obrigados a segui-los.

Por outro lado, consideremos o seguinte: o conceito cristão de “vida contemplativa” (a vita contemplativa) foi construído a partir do conceito aristotélico de “tempo livre”. Ademais, a distinção entre “Artes Liberais” e “Artes Servis” tem a sua origem precisamente ali. Mas essa não seria uma distinção de interesse exclusivo dos historiadores? Bem, pelo menos um lado dessa distinção destaca-se na vida cotidiana, quando surge o tema do “trabalho servil”, o tipo de atividade considerada inapropriada para o “descanso sagrado” do Sabbath e dos domingos e feriados. Quantos são aqueles que estão conscientes de que a expressão “trabalho servil” não pode ser integralmente compreendida sem contrastá-la com as “artes liberais”? E o que significa afirmar que algumas artes são “liberais” ou “livres”? Essas coisas ainda precisam ser esclarecidas.

Demonstramos, pelo menos, que as palavras de Aristóteles tem alguma relevância para nossa época. 
Porém, isso ainda não é suficiente para nos “engajar”. O real motivo de mencionarmos a sentença aristotélica foi para mostrar quão nitidamente a moderna valoração do trabalho e do “tempo livre” difere daquela promovida pela Antiguidade e pela Idade Média. De fato, essa diferença é tão grande que já não podemos compreender instantaneamente o que a mentalidade antiga e medieval apreendia da sentença “Nós não estamos em tempo livre a fim de que estejamos em tempo livre”.

Hoje, a mera existência dessa diferença e de nossa inabilidade em recuperar o significado original de “tempo livre” vai nos abalar cada vez mais que percebermos como, de forma extensiva, a ideia oposta de “trabalho” tem invadido e tomado conta de todo o reino da ação humana – e da existência humana como um todo; e também seremos abalados quando percebermos como estamos solícitos para atender a todos os apelos de uma pessoa que “trabalha”.


(...)

Uma concepção alterada do ser humano e uma nova interpretação do significado da existência humana estão por trás dos recentes apelos feitos pelo “trabalho” e pelo “trabalhador”. E, como nós mesmos poderíamos esperar, a evolução histórica que resultou nessa mudança de concepção é difícil de seguir e quase impossível de ser recuperada detalhadamente. Se algo de real importância vai ser dito sobre o assunto, isso vai ser alcançado não por uma reconstrução da narrativa histórica, mas por uma escavação mais profunda às raízes mesmas da compreensão filosófica e teológica da pessoa humana.

quarta-feira, 5 de setembro de 2012

Bênção da Coroa do Advento


Abaixo, uma bênçao simples da coroa do Advento em família. Ela pode ser feita antes do jantar (ou principal refeição), quando todos estão reunidos em casa. A bênção é feita somente no primeiro domingo do Advento, quando se acende a primeira vela.

(Em pé, ao redor da coroa, todos fazem o sinal-da-cruz)

Pai da família: A nossa proteção está no nome do Senhor.

Todos: Que fez o céu e a terra.

Pai da família: Ó Deus, por cuja Palavra todas as coisas são santificadas, derramai Vossa bênção sobre esta coroa e concedei a nós que a usamos poder preparar nossos corações para a vinda de Cristo e receber Vossas abundantes graças. Por Cristo nosso Senhor.

Todos: Amém.

(Acende-se a vela roxa)

****

Nos outros dias do Advento, antes de acender a vela, uma das orações abaixo é feita, dependendo da semana. A vela fica acesa durante o jantar, até depois das orações da noite (que é feita em volta da coroa), ou até a hora de ir para a cama.

Primeira semana: Ó Senhor, despertai o Teu poder, e rogamos a Ti que venha por Tua proteção o merecimento de sermos resgatados dos perigos que nos ameaçam os nossos pecados, e de sermos salvos por Tua libertação. Amém.

Acende-se a primeira vela roxa.

Segunda semana: 
Ó Senhor, despertai nossos corações para que, preparados para a vinda do Teu Filho unigênito, possamos Te servir com os espíritos purificados. Por Cristo nosso Senhor. Amém.

Acende-se a primeira e segunda velas roxas.

Terceira semana: 
Ó Senhor, suplicamos-Te: inclinai os vossos ouvidos às nossas orações e iluminai a escuridão dos nossos espíritos com a graça da Tua visitação. Por Cristo nosso Senhor. Amém.

Nesta semana do domingo Gaudete, as duas velas roxas mais a vela rosa são acesas.

Quarta semana: 
Ó Senhor, despertai Teu poder sobre nós para que com a vinda do Vosso auxílio, ajudados por vossa graça, Tua misericórdia alcance o que os nossos pecados nos impedem. Por Cristo nosso Senhor. Amém.

Todas as velas são acesas.

No dia 24 de dezembro, depois de todas as velas serem acesas, a coroa do Advento pode ser colocada na porta das casas (a famosa guirlanda de Natal). As velas são retiradas e deixadas em um lugar de destaque. A guirlanda e as velas permanecem até o final do Natal (na Epifania). As velas são acesas todos os dias à noite.

segunda-feira, 3 de setembro de 2012

Como ensinar o Catecismo às crianças? (Parte II)

(Capítulo do livro A pedagogia do Catecismo)

Para ver a parte I, clique aqui.

II
RECURSOS DIDÁTICOS

Exemplos - As dificuldades que as crianças têm de aprender abstrações se esbatem pelo exemplo, que é concreto, partindo do conhecido para o desconhecido, do particular para o geral. Tenho observado que de explicações dadas o exemplo foi a única coisa que as crianças guardaram. E todos vêem como a expressão dos pequenos muda, quando lhe dizemos: "por exemplo"... e depois que o demos, respondem-nos: "Agora, entendi!" Por isto querem alguns que o exemplo deva mesmo preceder a explicação, para não se mortificar inutilmente a criança.

Para preencher o fim, deve o exemplo adaptar-se o mais possível ao que explicamos. Do contrário, vai confundir. Para ser claro, deve ser breve, para não fatigar nem distrair o tema que se quer esclarecer. Por isto mesmo, um exemplo é suficiente a cada explicação; nem convém multiplicá-los.

É raro que os exemplos nos venham de pronto à mente com todos os requisitos: é preciso prepará-los, quando se prepara a lição do Catecismo. Então, já será fácil evitar tudo o que for chocante, desagradável e pouco digno da inocência infantil.

Para dar uma ideia do valor dos exemplos, lembremos a palavra do conhecido Quinet: "O catequista só fala realmente às crianças, quando pronunciou o "pior exemplo".

Comparações - A comparação é mais difícil que os exemplos e serve menos, principalmente aos menores. O espírito infantil mal pode fazer as aproximações que são a essência da comparação. É fácil o pequeno tomar a comparação pela própria coisa, e estabelecer confusões¹.

O cuidado nas comparações deve ser ainda amior que nos exemplos. Nada de trivialidades, imcompatíveis com a dignidade da Religião.

Bem feita, a comparação é um poderoso auxiliar. Fácil, concreta, viva, mais conhecida, é ótimo caminho para melhor e mais segura compreensão.

Histórias - As crianças gostam imensamente das histórias. Dos "casos", como dizem elas. É, em geral, o que nos pedem. Ora, não é das menores, senão das grandes preocupações, fazer o Catecismo, ao agrado infantil. É de ver a atenção quando se começa uma história. "Um dia... Uma vez..." Faz-se um silêncio profundo, fixam-se as vistas na catequista, a imobilidade é de estátuas vivas. Quem ouve assim, aprende melhor, guarda muito mais.

A história tem ainda a vantagem de falar não só à inteligência, mas principalmente à vontade. A criança vibra, ouvindo os "casos": toma-se de amor à virtude, de horror ao mal - o que é muita caminhada na formação espiritual. Trata-se, realmente, de pessoas que a imaginação infantil percebe e vê, movendo-se vivas, ali presentes. É neste momento que asa crianças resolvem intimamente fazer como este ou não fazer como aquele. É excelente a reação despertada. 

Nem fica nisto. O pequeno, que não sabe repetir a lição de Catecismo, os conselhos ouvidos, sabe contar a história. E propaga a doutrina que a história encerra. O papai gostará de ouvir... o que, talvez, nunca ouviu!

É aqui que a História Sagrada e a História da Igreja, a vida dos santos entram como indispensável auxiliar do Catecismo. Tirados destas fontes, os fatos realizam a primeira qualidade: são verdadeiros. Os fatos verdadeiros não correm o risco de ser inverossímeis. As crianças são bastante ativas ou o serão para perceber o absurdo de certas histórias, que servem apenas para desacreditar a Religião no ânimo dos alunos.

Para agradar, devem ser interessantes. Que prendam, atraiam. Acham alguns que o conseguem mais facilmente, enfeitando as histórias. Contanto que esses enfeites não deformem, porque o exagero é contra a verdade. É também errôneo contar a história só porque é interessante. A catequista lembre-se que as histórias são auxiliares da catequese. 

Só podem dar gosto histórias breves. É da psicologia da criança. Coisa ligeira, que não canse.

As histórias sublinham a doutrina, movem a vontade; devem ser edificantes. Mas, cuidado também aqui com os exageros. nada de pieguices, de sentimentalismos. A história já edificada por si. A catequista, com o tom da voz, o gesto, a expressão, fará o resto. Para não acontecer que as crianças se aborreçam com o que as deve edificar. A grande arte aqui é apresentar o imitável, indicando o modo e a oportunidade da vida para a imitação.

É por isso que as histórias serão ordinárias - atos que todas possam fazer, quando se tem em vista a lição moral. É erro estar contando milagres e visões das vidas dos santos, quando os exemplos de virtudes é que os santificaram².

Estes fatos extraordinários dão a falsa e prejudicial impressão de que a santidade nos é impossível. Ensinemos a fazer as ações comuns de modo perfeito: - eis a santificação.

A escolha das histórias não é tão simples: precisa ser feita de antemão, com cuidado, nada impedindo que se aproveite a história profana ao lado das fontes religiosas.

Parábolas - São as parábolas um modo de ensinar escolhido por Cristo: "E lhes falava em muitas outras parábolas como estas, conforme o permitiam os ouvintes; e não lhes falava sem parábolas" (Mc 4, 33-34). Não as podemos dispensar no Catecismo. São simples, fáceis algumas, belas, de notável beleza umas, capazes de seduzir e encantar os pequenos. São, sobretudo, ricas de lição.

Contando-as, a catequista lhes mudará a linguagem, mas guardará a fidelidade. Sou contrário aos enfeites nas parábolas de Cristo. Elas valem por si. Quando o divino Mestre as quis mais vivas e dramáticas, deu-lhes o tom movimentado do "Filho pródigo"; do "Devedor infiel", etc. Nada impede, antes convém que se mudem certas circunstâncias, que as crianças não compreenderão. Às maiores, o melhor é explicá-las. "Um homem descia de Jerusalém para Jericó"... Explica-se, compara com dois lugares vizinhos, conhecidos. Perder-se, porém, em explicações seria prejudicar a visão do conjunto, que constitui o essencial para a criança reter.

Aplicar a parábola à vida da criança é o fim visado pela catequese. Mas esta aplicação exige uma interpretação real, no sentido mesmo das palavras de Nosso Senhor. Não se pode fazer isto arbitrariamente. Este sentido é dado claramente nalgumas parábolas; noutras percebe-se pelo contexto, sendo, por isso, necessário lê-las no conjunto da página evangélica. Algumas estão interpretadas ou aplicadas oficialmente na Liturgia como a Grande Ceia.

São as parábolas uma excelente oportunidade para obrigar a atividade da criança. Repeti-la, escrever, ilustrá-la. Melhor ainda interpretá-la: Que quer Nosso Senhor dizer com isto? E a conclusão, muito melhor descoberta que imposta: E vocês, a quem irão imitar: ao fariseu? Por que?

Ah! que riqueza a catequista encontra no Evangelho.


III
AUXILIARES DO ENSINO


Excursões - Só os que não sabem o que são as excursões escolares lhes poderão ser inimigos. Elas realizam muito. Deixam largo proveito. O Dr. Everardo Backheuser as compara com uma "viagem de estudos"³.

Também no ensino religioso serão úteis se realizadas nas condições de uma verdadeira excursão escolar e não de mero pequenique ou passeio à toa.

A professora que, tendo saído com seus alunos, passando por uma igreja, entrasse nela, e saísse dizendo que fez "uma excursão à igreja", estaria muito enganada. Bem ao contrário seria, se ela tivesse falado em aula a respeito do templo católico e lembrasse uma visita a um dos da cidade. Qual? As respostas já dariam lugar a muita educação. A mais próxima? A mais bonita? A mais bem situada? A dedicada a este ou àquele santo? E os alunos resolverão. Eles mesmos - um ou uma comissão - ficam encarregados de combinar com o Vigário o dia e a hora. Durante a semana, foi a preocupação. Todos estão ansiosos.

Faz-se a excursão. Chegados à igreja, observam-na por fora, desde longe, ao avistá-la. Por conhecida que seja, muitas coisas vão parecer-lhes novidade, porque vistas de outro ângulo, conforme a preparação feita. Antes de entrar, ótima oportunidade para uma advertência:
- É a Casa de Deus: respeito!

E a genuflexão? E a diferença entre Santíssimo Sacramento e as imagens? Certas imagens - verdadeiros sermões rápidos e eloquentíssimos! A pia batismal, o confessionário, o púlpito, a mesa da comunhão, as pinturas... Os pequenos poderão observar, conversando em voz baixa.

Depois, fervilham os comentários. A professora quer saber de tudo. As perguntas chovem e se cruzam:
- A senhora viu isso?
- E você que acha? Por que será aquilo? E aquilo lá?

Travam-se, às vezes, as discussões, que vão para a professora resolver. Agora, uma descrição. Vamos também desenhar a igreja. E não faltará quem queira reproduzir - Deus sabe como, e não só perdoa, mas se alegra! - um quadro bonito, ou modelar a mesa da comunhão, ou construir um confessionário em miniatura.

De outra vez, irão assistir à administração dum sacramento: um batizado, um casamento. Irão ver a encomendação de um morto. Irão estudar as várias partes de uma igreja. Ou conhecer os paramentos sacerdotais e os utensílios sagrados.

Tudo igualmente preparado, anunciado, despertando os espíritos e o interesse, abrindo os olhos para a observação e fixando-se depois em arguições e deveres escritos ou em trabalhos manuais e de modelagem.

O que aí fica é um exemplo do que se pode e de como se deve fazer. Não significa que as excursões catequéticas se limitem às igrejas. Os hospitais, asilos, creches, os cemitérios, outros centros de Catecismo, poderão prestar-se a interessantes e proveitosas excursões.

Deveres escritos - Em matéria de eficiência escolar, devemos pelo menos equiparar o Catecismo às demais disciplinas. O dever escrito tem numerosas vantagens. Aqui a criança trabalha de verdade. Emprega esforço. Faz obra sua. Exercita-se, concentra-se, produz. É atividade a que não pode fugir. Não é parasita de ninguém. Não é receptiva: é produtora. Para corrigir e educar as crianças desatentes, poucos exercícios terão tamanha eficácia como os deveres escritos.

Naturalmente não quererão fazer feio, e se obrigam a prestar mais atenção às explicações. Se depois não entenderam bem, e são obrigadas a escrever, recorrem a explicações, ou da própria catequista ou dos pais e irmãos mais velhos, em casa.

É óbvio que o dever escrito obriga a uma melhor compreensão. Nunca se escreve bem, com clareza, o que se sabe mal. As noções bem compreendidas são mais facilmente expressas.

Com isto se logra melhor estudo da Religião. De fato, além da horinha do Catecismo, são poucas as nossas crianças que o estudam em casa. Agora, porém, já irão fazê-lo insensivelmente. Tem de levar o dever...

Uma razoável emulação se estabelece, porque as crianças gostam de saber como se saíram os colegas das mesmas dificuldades.

Assim se consegue também pôr o Catecismo no pé de igualdade das demais matérias que tem todas os seus exercícios - o que não é pequena vantagem, por levantar o ensino religioso do baixo nível, em que por tanto tempo esteve. E em casa se vai vendo a importância dada ao Catecismo, o que há de, forçosamente, contribuir para um interesse maior por parte dos descuidosos pais. Não se esqueça o lado psicológico, dos mais interessantes, que é o amor com que mais tarde se vai ler tudo isto que agora foi escrito... Esses deveres escritos são, ademais, propícios à fixação, sabido como é que lê duas vezes quem escreve.

Mesmo em classe os cadernos terão a sua função. Aí conservação os alunos os gráficos, as divisões e esquemas feitos no quadro-negro; as frases incisivas que devem ficar como normas na vida. Aí, em aula mesmo, responderão, de tempos a tempos, às perguntas que lhes fará a catequista quer como verificação, quer como pesquisa de julgamento cristão. Mesmo alguns testes podem ser ditados para ficarem nos cadernos. Aí farão os resumos, as composições, os desenhos e "expressões" com que ilustram os demais cadernos.

Estou vendo a objeção das catequistas paroquiais: "Isto é impossível, fora das escolas". A impossibilidade pode vir: ou do local, que a igreja não se presta por falta de mesas, ou da pobreza das crianças. Vi, muitas vezes, as crianças de joelhos no chão, escrevendo nos bancos, quando esses não tinham genuflexório; quando tinham, elas se ajoelhavam naturalmente, e escreviam. Posição incômoda... que as crianças tomam alegremente, não só por não estarem ainda afeitas ao conforto burguês, como por acharem aquilo preferível à passividade a que as obrigam as intermináveis explicações. Quando à pobreza remedeie a catequista ou a Congregação da Doutrina Cristã da paróquia, do mesmo modo que atende às outras necessidades dos alunos pobres.

A impossibilidade fique apenas para os casos em que existe de fado, e não são poucos, quando nas vilas operárias e nos bairros distantes a mocinha zelosa ou o vigário diligente reúne as crianças ao ar livre ou debaixo de alguma árvore, à míngua de sala que as comporte ou da igreja que não existe. Fora disto, há dificuldades, que é preciso vencer.

Jogos - Os jogos entraram em cheio como elemento de atividade escolar. Correspondem admiravelmente as tendências das crianças e lhes fazem amar a escola, onde aprendem brincando, como, aliás, já o pedia o grande São Jerônimo, nos primeiros séculos do cristianismo (4).

O nosso trabalho será escolher jogos de acordo com a idade dos alunos, aproveitando os de mais fundamento psicológico e valor educativo (5). Para os pequeninos servem os jogos que apenas lhes exerçam as atividades. Na escola primária a escolha recairá sobre os que auxiliam o trabalho e tem um fim educativo mais definido. Na fase em que nos achamos, somos pouco exigentes a este respeito, satisfazendo-nos tudo o que tornar o Catecismo amável e atrair as crianças para a Religião. As catequistas aproveitem o que existe, sem descuidar de ir aperfeiçoando, e inventando novos.

Não se pretende substituir a aula pelos jogos, mas o próprio jogo pode servir às vezes de aula como nas recapitulações em que jogos sobre virtudes, mandamentos, vida de Cristo, dão ensejo para lembrar toda a doutrina vista.

Noutros casos eles serão feitos - livremente, sempre livremente - nos recreios, principalmente nos internatos, onde poderão até ocupar uma parte dos tempos livres dos retiros, que é ilusório pensar que as crianças empreguem em reflexões.

É bom que os jogos catequéticos tenham sempre a assistência da catequista, para evitar que se venha a perder o respeito às coisas que se veneram - o que não quer dizer que se jogue como quem se reza!

Quase toda a doutrina católica está hoje dissolvida em jogos de valor diferente (6).

Trabalhos manuais - Sabemos o papel que exercem na escola os trabalhos manuais. Pena é que não estejam ainda mais desenvolvidos e organizados para vencer as resistências tolas do meio, para ir acostumando cada brasileirinho a ter mais tarde a sua habilidade manual e a sua profissão técnica.

O Catecismo oferece as relações mais estreitas com atividades manuais. É simples cortar em papel ou catolina uma árvore, a serpente, armar um altar, fazer um confessionário, construir a mesa da comunhão. A aula de Catecismo, com as narrações da História Sagrada, oferecerá muitos motivos (7).

Para bordados, desenhos, pintura, desde os primeiros passos até às últimas lições; desde o papel quadriculado até à pura imaginação criadora; desde os pontos marcados em cartolina, até à mais fina costura, o Catecismo oferece ensejos e motivos. A "Croisade Liturgique à l'École" oferece um abundante material em modelos, de que a professora se pode servir.

É fazer muito ocupar as atividades das crianças em assuntos religiosos fora da aula de Catecismo, porque é pôr a Religião dentro do interesse infantil, é pôr a vida da criança dentro de um ambiente de Religião.

Controle de conhecimentos - É muito interessante saber o resultado do nosso ensino. A boa catequista vai percebendo, vai lendo nas fisionomias o interesse, a compreensão, as reações. Processo muito pouco objetivo, sem dúvida. É muito precário. Pode-se fazer o controle do conhecimento por meio de perguntas, exames, certames e testes.

1. Perguntas. Coisa de todas as aulas. A catequista usará constantemente da interrogação. As suas exposições serão sempre breves, e logo consultará as crianças, para lhes sustentar o interesse, manter a atenção. Em geral mais se gosta de falar que de ouvir. As perguntar terão no Catecismo a mesma função de sempre: excitação, investigação, verificação, revisão, fixação. Por elas se avaliará o reflexo do nosso ensino nas atitudes. O grande valor das perguntas vai, como se vê, muito além do simples controle de conhecimentos.

2. Exames. São pouco usados entre nós os exames de Catecismo. Fora os colégios que os conservam, um ou outro centro é que os aproveita. Algumas catequistas gostam de um "repasse" de quando em quando - espécie de exame parcial. Esse "repasse" pode ser oral ou escrito.

3. Os certames catequéticos começam a se introduzir entre nós, a ponto de irem à capital do país os vencedores diocesanos para disputa final. Os estudos a que obrigam, o interesse que despertam, nos fazem concluir em favor de seu uso mais frequente.

4. Testes. Agora que o Catecismo está introduzido nas escolas, como matéria equiparada às outras, só nos resta pôr a seu serviço tudo o que a boa pedagogia mete em proveito. Aliás, é o que já está sendo feito, embora em pequena escala.

Também agora, com melhor organização do ensino religioso, caminhamos para uma necessária uniformização, que congregará os esforços que andam dispersos por este imenso Brasil, e que nos há de permitir muito maior rendimento. Só por meio dos testes poderemos controlar o ensino religioso nas escolas, apurando o que se está fazendo, para podermos, ao mesmo tempo, corrigir os atuais programas e construí-los de modo seguro, objetivo, científico, apurando a eficiência dos processos empregados e dos manuais adotados.

Enquanto nos fiarmos nos exames ou - ainda mais - em meras informações de catequistas, com puros critérios subjetivos, nada conseguiremos a este respeito. Só o teste, com a sua uniformidade de forma, de matéria, de respostas, nos prestará os necessários informes.

Algumas professoras organizam testes para a sua classe. Estes têm valor apenas para esta classe. Outras aplicam simplesmente os modelos que foram feitos para outros lugares e noutras circunstâncias. Isto é de valor mais que duvidoso. Há escolas que estão preparando testes para todas as suas classes, sobre um programa, com a preocupação de poder um dia padronizá-los. Nestes já podemos confiar mais.

Parece, entretanto, que a preparação dos testes deve ficar a cargo do Conselho Diocesano de Ensino de Religião, que a constituição de 12 de janeiro de 1935 obriga a criar em cada diocese, com o fito de orientar o Catecismo, porque a ele compete saber do andamento do ensino religioso na Diocese e da sua eficiência - o que só por uma medida uniforme e geral poderá conseguir. Também a organização destes testes de Religião requer um rigor doutrinário, que não convém confiar a quaisquer mãos. A própria técnica de construção dos testes exige conhecimentos e cuidados que não andam ainda muito divulgados. E só a aplicação a um grande número de alunos permite assegurar-nos do valor dos testes como norma para a objetividade dos programas.

Para tal é necessário que se obedeça a um único programa - o que também só se pode alcançar por meio de um órgão central como o Conselho Diocesano.

Dramatizações - Em teoria, são um dos mais interessantes e valiosos processos da escola renovada. Levam à vida até onde é possível fora da própria coisa. É de sua essência que os alunos saibam e sintam a ponto de serem capazes de viver o episódio, reproduzindo-o por si mesmos, encarnando as figuras que representam de modo espontâneoo. Não há nada que mais se aproxime da realidade viva.

Está visto que o Catecismo, cujo fim é fazer saber e sentir para viver a Religião, tem muito a aproveitar-se das dramatizações, que juntam aqui um novo valor aos seus muitos valores educativos (8).

Não haverá dificuldade alguma em dramatizar certas passagens da História Sagrada e do Evangelho, como a história de José do Egito, o sacrifício de Isaac, o Natal com os pastores e os Magos, a prisão de Cristo, e muitos outros.

A Liturgia se presta ainda mais, porque as crianças vêem as cerimônias, que devem reproduzir. Num "batizado" de boneca, pode ir uma excelente lição sobre o Batismo. A própria Missa pode servir às dramatizações,  e então teremos muita  coisa a retificar, a acentuar, fazer viver. Depois de uma lição sobre o modo de se confessar, em preparação para a primeira comunhão, uma criança se "confessou" a outra que "fazia de conta" que era o padre: confissão que teve de tudo, inclusive a "absolvição" num "latim" que eu lastimei não entender...

Alguns temem que as crianças ridicularizem as coisas santas que dramatizam. Mas a dramatização é exteriorização dos sentimentos que a aula despertou. Por isso mesmo, é muito séria para os que a fazem, e só a estranhos pode parecer disparata ou ridícula. As crianças se convencem de que aquilo é de verdade. O que faz de padre toma os ares sacerdotais, dá a mão a beijar e os outros lhe tomam a bênção tranquilamente.


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(1) - A catequista tinha explicado a Santíssima Trindade pela folha de trevo: três folhas em uma folha. Depois, no questionário, uma pequena diz: "Eu sei o que é a Santíssima Trindade: é uma folha de trevo".
(2) - Neste sentido são particularmente infelizes, antipedagógicas quase todas as vidas de santos, feitas por biógrafos pouco avisados. Hoje vai-se dando a este preciso gênero literário uma feição mais humana, onde o sobrenatural tem a sua função. "O Espírito de Santa Teresa do Menino Jesus" é o livro que melhor realiza o ideal de vida de santo.
(3) - Vide "Técnica da Pedagogia Moderna".
(4) - "Dai-lhe (à criança) letras de madeira ou de marfim, e ensinai-lhes os nomes. Isto lhe servirá para jogar e o Jogo a instruirá". São Jerônimo, Cartas.
(5) - Entre os melhores estudos sobre os jogos está o de Claparède, na "Psicologia da Criança". O cap. de Aguayo sobre o assunto na "Didática da Escola Nova" é bom, sendo mais simples e rápido que o de Clarapède. Ver igualmente os "Princípios Gerais de Educação" de Lourenço Filho. Aqui não podemos tratar senão da aplicação ao Cateismo, supondo os conhecimentos gerais sobre a questão.
(6) - Sem apaludir todos igualmente, recomendamos "Les jeux du Catéchisme" de C. Bruel. O "Apostolat Liturgique" da Abadia de S. André (Lophem-Lez-Bruges, Bélgica) tem numerosos trabalhos, dos quais salientamos "La Messe basse en loto", "Le Pelegrinage en Terre Sainte" e "La Liturgie en jeu". Em quadros de figuras móveis a mesma editora tem "Les Céremonies de la Messe", "Les Céremonies du Baptême" e "Methode Cibel", teatro para o ensino do Catecismo.
(7) - Vi num Grupo Escolar, feito em argila, o sacrifício de Isaac, completo: desde Abraão ao anjo. Depois de uma festa de comunhão geral no Grupo, fizeram em argila tudo que era possível fazer do que se passou: uma recomposição completa das cerimônias.
(8) - "Pela dramatização o aluno expressa claramente a sua concepção do assunto a ser aprendido, podendo manifestar e afirmar melhor a sua personalidade. Desse modo, estimula a iniciativa, desenvolve a capacidade criadora; adquire desembaraço e independência; corrige e aperfeiçoa a sua elocução; favorece o espírito de colaboração e auxílio mútuo". Alcina Backheuser, in Rev. Bras. Pedagogia.

domingo, 2 de setembro de 2012

Sobre as conferências episcopais

Até onde vai a autoridade das conferências episcopais? O Cardeal Ratzinger responde em seu livro de entrevistas intitulado "A fé em crise?".


Dos "simples padres" passamos aos bispos, isto é, àqueles que, sendo "sucessores dos Apóstolos", detêm a plenitude do sacerdócio, são "mestres autênticos da doutrina cristã", gozam de autoridade própria, ordinária, imediata sobre a Igreja que lhes foi confiada", da qual são "princípio e fundamento de unidade", e que, unidos no colégio episcopal com a sua Cabeça, o Romano Pontíficie, "agem na pessoa de Cristo" para governar a Igreja universal.

Definições estas, as que demos, são próprias da doutrina católica sobre o episcopado, reafirmadas com vigor pelo Vaticano II.

O Concílio, recordava o Cardeal Ratzinger, "queria justamente reforçar a função e a responsabilidade do bispo, retomando e completando a obra do Vaticano I, interrompido pela tomada de Roma quando somente tinha conseguido ocupar-se do Papa. Deste último os Padres conciliares tinham reconhecido a infalibilidade no magistério quando, como Pastor e Doutro supremo, proclama que se deve ter como certa uma doutrina sobre a fé ou sobre os costumes". Criou-se, dessa forma, um certo desequilíbrio em alguns autores de manuais de teologia, que não realçavam bastante que também o colégio episcopal goza da mesma "infalibilidade no magistério", sempre que os bispos "conservem o liame de comunhão entre eles e o sucessor de Pedro".

Tudo em ordem novamente, pois, com o Vaticano II?

"Nos documentos, sim, mas não na prática, na qual se deu um outro dos efeitos paradoxais do pós-concílio", ele responde. Com efeito, explica: "A decidida retomada do papel do bispo, na realidade, enfraqueceu-se um pouco, ou corre até mesmo o risco de ser sufocada pela inserção dos prelados em conferências episcopais sempre mais organizadas, com estruturas burocráticas frequentemente pesadas. No entanto, não devemos esquecer que as conferências episcopais não possuem uma base teológica, não fazem parte da estrutura indispensável da Igreja, assim como querida por Cristo: têm somente uma função prática, concreta".

É, aliás, diz ele, o que confirma o novo Código de direito canônico, que fixa os âmbitos de autoridade das Conferências, que "não podem agir validamente em nome de todos os bispos, a menos que todos e cada um dos bispos tenham dado o seu consentimento", e a menos que não se trate de "matérias sobre as quais haja disposto o direito universal ou o estabeleça um especial mandato da Sé Apostólica". O coletivo, portanto, não substitui a pessoa do bispo, que, como recorda o Código, repetindo o Concílio, "é o autêntico doutor e mestre da fé para os fiéis confiados aos seus cuidados". Ratzinger confirma: "Nenhuma Conferência Episcopal tem, enquanto tal, uma missão de ensino: seus documentos não têm valor específico, mas o valor do consenso que lhes é atribuído pelos bispos individualmente".

Por que a insistência do Prefeito nesse ponto? "Porque", responde ele, "se trata de salvaguardar a natureza mesma da Igreja Católica, que é baseada em uma estrutura episcopal, não em uma espécie de federação de igrejas nacionais. O nível nacional não é uma dimensão eclesial. É preciso que fique claro de novo que, em cada diocese, só existe um pastor e mestre da fé, em comunhão com os outros pastores e mestres e com o Vigário de Cristo. A Igreja Católica mantém-se no equilíbrio entre a comunidade e a pessoa, neste caso a comunidade das igrejas locais individuais unidas na igreja universal e a pessoa dos responsáveis pela diocese".

Acontece, diz ele, que "certa diminuição do sentido de responsabilidade individual em alguns bispos e a delegação dos seus poderes inalienáveis de pastor e mestre às estruturas da Conferência local correm o risco de fazer cair no anonimato aquilo que deveria, ao contrário, permanecer muito pessoal. O grupo dos bispos unidos nas Conferências depende, na prática, para as decisões, de outros grupos, de comissões específicas, que elaboram roteiros preparatórios. Acontece, além disso, que a busca de um ponto comum entre as várias tendências e o esforço de mediação dão lugar, muitas vezes, a documentos nivelados por baixo, em que as posições precisas são acentuadas".

Recorda que, em seu país, existia uma Conferência Episcopal já nos anos 30: "Pois bem, os textos realmente vigorosos contra o nazismo foram os que vieram individualmente de prelados corajosos. Os da Conferência, no entanto, pareciam um tanto abrandados, fracos demais com relação ao que a tragédia exigia".