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quarta-feira, 25 de abril de 2012

Sobre a autoconfiança

Trecho retirado do capítulo I do livro "Ortodoxia", de G. K. Chesterton

As pessoas não conhecem a fundo o mundo em que vivem e, por essa razão, acreditam, cegamente, em meia dúzia de máximas cínicas que estão longe de ser a expressão da verdade. Uma vez, andava eu a passear na companhia de um próspero editor, quando este, em determinada altura da nossa conversa, fez uma observação que eu já ouvira diversas vezes, e que se pode considerar quase um lema do mundo moderno. Embora já tivesse ouvido tal afirmação com bastante frequência, só naquele momento refleti que ela era despida de todo e qualquer significado.
Falando a respeito de alguém, disse-me o editor: "Aquele homem vai longe, porque acredita em si mesmo". Recordo-me perfeitamente que, nessa ocasião, levantei a cabeça para escutar meu amigo e deparei com um ônibus cujo letreiro indicava que este se dirigia a Hanwell¹. "Quer que lhe diga", observei eu, "onde estão os homens que mais acreditam em si mesmos? Posso muito bem dizer-lhe, pois conheço alguns que têm em si próprios uma colossal confiança, maior do que a de César ou de Napoleão. Sei perfeitamente onde brilha a constante estrela da certeza e do sucesso, e posso conduzi-lo ao trono desses super-homens. Os homens que realmente acreditam em si mesmos estão todos nos hospícios".
Meu amigo ouviu e respondeu-me, sem se perturbar, que havia muitos homens nessas condições que não estavam nos manicômios.
"Há, sim", repliquei eu, "e o senhor os conhece melhor do que ninguém. Aquele poeta alcoólatra, de quem o senhor não quis editar uma lúgubre tragédia, era um homem que acreditava em si próprio. Aquele ministro idoso que lhe apareceu com um poema épico, e de quem o senhor se escondeu em um quarto de fundos, era outro homem que tinha confiança em si mesmo. Se consultar a sua experiência comercial, em vez de se apegar a uma torpe filosofia individualista, há de verificar que a autoconfiança é uma das características mais comuns de um fracassado. Os atores que não sabem representar, assim como os devedores que não querem pagar, são sempre pessoas que têm confiança em si mesmas. A autoconfiança absoluta não e, simplesmente, um pecado: é uma fraqueza. Acreditar excessivamente em si próprio é uma característica de histeria e superstição; é como crer em Joanna Southcott². O homem que alimenta tal crença tem a palavra Hanwell gravada no rosto, tão nitidamente como naquele ônibus".
Depois de ter ouvido o que eu lhe disse, o editor acabou por fazer-me esta profunda e justificada pergunta: "Mas, então, se o homem não acreditar em si mesmo, em que há de acreditar?"
Segiu-se um longo silêncio, antes que eu lhe respondesse: "Vou para casa escrever um livro como resposta à sua pergunta". E este é o livro que para tal fim escrevi.

Para que o leitor descubra esse autor genial.