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sexta-feira, 19 de agosto de 2011

O sacrifício da autoridade paterna

A vida em comunidade precisa de ordem. A inexistência de modos de comportamento regidos pelos mais experientes implicaria numa escravização dos homens aos apetites primários, o que não possibilitaria a vida humana como a conhecemos. A autoridade é, então, uma coisa necessária para a humanidade.

A partir da lei natural, aprendemos em nossos corações que existe uma fonte de autoridade. Na vida social, ora precisamos impor, ora precisamos obedecer. Neste chamado tipicamente humano, há uma série de direitos e deveres que cumprimos, não porque foram invenções de nossos apetites, mas porque é algo que todos reconhecem em si.

Porém, esta igualdade entre os homens, que é a semelhança com Deus, sempre foi questionada. Não me refiro, necessariamente, aos ateus, aos anarquistas, ou a quem quer que duvide ou negue a existência do Deus que ensina aos homens como se assemelhar a Ele.

O nosso egoísmo, quando consumado em qualquer uma de nossas faltas, é um sintoma, desde o primeiro erro da humanidade (que a Igreja chama sabiamente de “pecado original”), de que somos tentados a ser inventores de uma coisa que não nos pertence, que é a fonte de toda a autoridade. Se o outro também tem esta fonte inscrita no coração, eu não posso me colocar à frente dele como legislador da vida. Eu não posso destituir o outro de tal dignidade. Nesse sentido, preciso amar ao próximo como a mim mesmo.

Portanto, somos chamados a viver numa comunidade que será tão mais saudável quanto mais próximo for o entendimento de que os homens são semelhantes a Deus. O uso altruísta da autoridade nata é uma manifestação dessa semelhança e o uso egoísta é a sua negação.

A primeira comunidade semelhante a Deus é a família. Da geração do homem e da mulher, existe uma manifestação que se assemelha à criação primeira. Deus criou o homem e os homens criam os seus filhos.

Se quisermos que a vida humana “dê certo”, é preciso que a família “dê certo”. É muito difícil mudar para melhor as ordenações injustas de nossos sistemas políticos e econômicos, mas, ainda que isto seja possível, é preciso que as mudanças comecem conosco, a partir de nossos círculos mais íntimos.

A família precisa ser imitadora das intenções divinas, criando pessoas em corpo e alma. A educação dos filhos é devedora do “ser humano” que Deus nos concede. A formação precisa da autoridade e enquanto os filhos não atingirem total responsabilidade pelos seus atos, é dever dos pais, não apenas com Deus, mas consigo mesmos e com a prole, exercer os deveres que lhe são concedidos. Se os filhos não estiverem sob as regras firmes dos pais, a família trairá a sua vocação natural.

Pai e mãe são uma só carne e todas as suas intenções para com os filhos precisam ser semelhantes. Aos olhos dos filhos, diferenças de opiniões entre marido e mulher só valem no âmbito das preferências entre morango e chocolate. Se houver diferenças de intenção sobre como exercer a autoridade paterna, que o consenso seja buscado a qualquer custo, nem que um dos lados tenha de ceder. E, mesmo que o lado que opine por mais “rigidez” pareça ter menos razão, é recomendável que a concessão seja para esta orientação. Impedir os garotos de fazer isso, vestir aquilo ou ir para acolá não é o fim do mundo.

Tradicionalmente, a figura do pai zela mais pela rigidez, enquanto a mãe nutre um espírito maior de cumplicidade para com a prole. Se por um lado, a educação moderna coloca o pai mais próximo afetivamente dos filhos, o que é algo muito bonito, por outro lado existe aí a perigosa tentação da cumplicidade. Em muitos lares, o pai é mais manso com a prole do que a mãe, porque o homem quer ser bem quisto pelos garotos. É um anseio compreensível, devido à dureza do mundo. O sujeito passa o dia pressionado pelas dificuldades da vida e quando chega em casa deseja, legitimamente, alguma ternura. Claro que os filhos são fonte de ternura, mas quem tem o dever de zelar pela autoridade no lar não deve se preocupar em ser recebido com mimos. Quando for necessário, o pai deve fazer o sacrifício de ser menos compreendido e querido do que a mãe. Faz parte da sua digníssima vocação. A longo prazo, os filhos bem formados lhe serão gratos, mas no calor do momento, o pai deve estar preparado para a impopularidade.

O homem se inclina mais facilmente pelo zelo da autoridade, enquanto a mulher é uma guardiã mais natural das ternuras. Em algumas ocasiões, o homem pode ser mais terno e a mulher pode ser mais rígida, mas se esta inversão se tornar uma regra, o lar não terá uma ordenação clara e natural. Ainda que o temperamento do homem seja mais maleável do que o da mulher, é preciso ter em vista que o exercício de formar os filhos é algo que nos transcende. Não fomos os primeiros e nem seremos os últimos a educar crianças. É preciso moldar nossas condutas para que sejam de acordo com as intenções divinas para a humanidade. Agiremos em verdade e, neste exercício livre, teremos feito a nossa parte para o bem estar de todos.

quinta-feira, 4 de agosto de 2011

Nossos amigos

Desde a infância, podemos ter pistas sobre quem somos a partir de quem são os nossos amigos. Gostamos de andar com quem aqueles que se parecem conosco, ou com a imagem que temos de nós mesmos.

Talvez, os amigos da adolescência tendem a ser transitórios menos por causa da mudança de rotinas do que pela luta individual em amadurecer. Em anos passados, aquilo que fazíamos e acreditávamos com os amigos bastante íntimos não combinaria mais com os presentes esforços de se encarar a vida adulta. Por outro lado, pelo fato da regra de se parecer com quem anda conosco permanecer, se o adulto é nostálgico dos companheiros de outrora, existe ali um sinal de dificuldade de amadurecimento. Este adulto ainda é adolescente no coração, porque se simpatiza mais pelos amigos de antigamente do que pelas pessoas que estão do seu lado.

Alguém poderia argumentar que as amizades são dependentes de círculos de convivência que não temos controle para demarcar, afinal não decidimos quem são nossos vizinhos e colegas de convivência diária. Porém, se o indivíduo se faz amigo de muitos daqueles que lhe são rotineiros - e aqui eu descrevo a amizade a partir de práticas como sair para jantar, chamar à casa, viajar juntos, etc - existe nesse sujeito um espírito inclinado a relacionamentos superficiais que reflitiria sua própria superficialidade. Exceções existem, mas se a identificação de amizade é imediata com muitos colegas de trabalho e vizinhos, isto significa que queremos nos parecer com indivíduos que têm as nossas mesmas inclinações - para usar um termo que leio em escritos de São Josemaría Escrivá - "aburguesadas". Pode-se conviver por anos com um desses amigos, mas os diálogos dificilmente sairão de anedotas, comentários sobre espetáculos das massas, fofocas com psicologismos rasteiros e reclamações do tempo, do mundo e das pessoas. Não se pode ser seletivo para ser caridoso, mas aceitar todos os convites para passeios não é necessariamente um sintoma de sociabilidade saudável.

Certa vez, um colega de trabalho, de outro departamento, me disse que não tem amigos, mas que é amigo. Gosto parcialmente da afirmação, talvez porque seja mais fácil para mim ouvir alguém, falar algo e ir embora para casa do que confraternizar com os outros numa festa. Então, se eu converso às vezes com aquele sujeito, em encontros rápidos pelo pátio, é sinal também de que me identifico com alguma coisa dele. O analítico senhor Baltazar gosta de caminhar sozinho por entre os blocos da repartição, sem destino certo. Às vezes, eu faço esses pequenos banhos de sol também, enquanto penso na existência, na humanidade e se compensa comprar um salgado gorduroso na cantina.

Neste andar, de vez em quando a vida faz boa surpresa com uma ligação da Gaby. É bom caminhar ouvindo a voz dela. Para a Gabriely que tanto preciso amar, é dever de sempre que eu busque o melhor dos amigos. Não poderia me imitar, porque nunca sairia de mim a beleza que ela merece. Mas antes de falar sobre este amigo que quero imitar, me permitam recuar num apanhado de impressões recentes. Depois de abençoar o nosso noivado, Dom Rafael Cifuentes continuou sua conferência. Até então, nunca o vimos pessoalmente. Enquanto Dom Rafael falava, alguma coisa do seu olhar, da sua dicção e da sua respiração - enfim, todo um combinado harmônico de se pronunciar sobre a vida - me levava para o Padre Rafael. Espero que vocês não se confundam com tantos Rafaéis, mas eu, Rafael, percebia indícios fortíssimos do Padre Rafael, meu confessor, em Dom Rafael. Para facilitar nossa compreensão sobre os Rafaéis, curiosamente, Dom Rafael foi o primeiro diretor espiritual do Padre Rafael. Algum tempo depois, isso me fez descobrir no coração que existe um carisma especial na ordem a que eles pertencem. Um carisma se manifesta de diversas formas e eu captei parte dele num senso de humor, de serenidade e de bondade que colorem as palavras daqueles sacerdotes. Porém, mesmo tendo descoberto que o carisma era uma coisa da "ordem", eu notava que aquela alegria não tinha sido inventada nem mesmo pelo fundador Escrivá. De fato, alguns padrões de comportamento que se repetem em amigos de um conjunto, mesmo religioso, são invenções bem mundanas. Vide o onipresente sotaque maroto, choroso e mais ou menos carioca dos pastores de uma seita, o palavreado barbado de sindicalistas e a oratória alegre, que não se sabe cínica, dos políticos brasileiros. Porém, na fala daqueles Rafaéis, o assemelhar-se é diferente, porque o amigo que eles imitam não vem da superficialidade da rotina ou dos interesses mundanos. É um amigo bastante conhecido, ainda que pouco ou superficialmente visitado.

Este amigo é Jesus Cristo. Quanto mais quisermos a amizade com Cristo mais nos pareceremos com Ele, do mesmo modo que quanto mais andamos com uma pessoa, mais tendemos a reproduzir o seu repertório de gestos e de expressões. Mas não pode se tratar apenas de uma amizade simbólica. É preciso visitá-Lo no sacrário, buscar Seus sacramentos na Igreja, conviver com bons sacerdotes, enriquecer a vida interior com orações e leituras espirituais, forçar o domínio de si por asceses, e fazer do cotidiano uma extensão da vida de Nosso Senhor.