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quinta-feira, 21 de julho de 2011

A Igreja e o diálogo com a esquerda


Comunismo e Igreja não dão certo juntos, porque aquele pretende instaurar o Reino ainda na história (séculos antes de Marx, já existiam heresias similares no cristianismo que remontam, em última instância, ao desejo de Judas), ao passo que a cristandade, até mesmo para não se misturar ao poder político, deve almejar a santificação dos seus, um a um, "ovelha perdida" por "ovelha perdida". Naturalmente, a nossa santificação é que tornará o mundo lugar cada vez melhor.

Digo isso, porque, por outro lado, a união dos cristãos com o conservadorismo político chega a um ponto insustentável se a ideia for conciliar os valores e consequências do liberalismo econômico com o cristianismo. A Igreja, definitivamente, não endossa os rumos de uma cultura que, na criação desenfreada de produtos de consumo, tem alimentado os demônios do individualismo, da massificação, da avareza corporativa, da esterilidade social e da crise das famílias.

Penso que o liberalismo só pode ser mais "desejado" que o comunismo, porque não existe no sistema capitalista um projeto articulado de reformulação da sociedade. Porém, é bastante claro que a civilização do consumo tem causado revoluções de comportamento que, se fizessem parte de um programa organizado com este fim, seriam gravemente condenadas pela Igreja. Aliás, os "estragos" causados por esta cultura moderna não perdem em nada para as violências dos regimes totalitários, porque são nascidos do mesmo desencanto.

O liberalismo e o comunismo são filhos do mesmo pai, o deus ausente. Primeiro, acreditaram que Cristo não precisava da Igreja. Depois acreditaram que o mundo não precisava de Cristo. O ateísmo moderno foi o caminho natural desse desencanto que, nos dias de hoje, coloca em dúvida a própria crença no "homem".

Se o liberalismo econômico, na pior das hipóteses, é mais "desejado", eu ouso dizer que do ponto de vista da investigação da realidade que alerta para a necessidade de mudanças, há pontos do pensamento da esquerda indubitavelmente mais cooperativos com os desafios da cristandade do que as repercussões individualistas da filosofia liberal. Se eu chego à conclusão, por exemplo, que a esterilização artificial da sociedade tem raízes na alienação causada pelo mundo do consumo, humildemente atribuo à esquerda esse tipo de investigação.

É preciso abrir as portas para o diálogo com todos aqueles, à direita ou à esquerda, que estejam interessados num mundo atento para a dignidade humana.

Desde que era cardeal, o Papa Bento XVI mantém diálogo com um jornalista alemão de esquerda, Peter Seewald. Os diálogos já renderam dois livros "Sal da terra", de 1996, e "Luz do mundo", de 2010.

Uma pergunta do jornalista em "Sal da terra" me chamou muito a atenção. Peter Seewald rememora uma carta de Pier Paolo Pasolini ao Papa Paulo VI, numa época já próxima do falecimento do cineasta. Pasolini escreve, com uma certa esperança, que a Igreja deveria resgatar um espírito de contestação e unir os inconformistas do "império" do consumo, numa luta análoga à do papado contra os poderes de outrora.

Na resposta, o então cardeal Ratzinger diz que há muita verdade na fala de Pasolini, uma vez que desde os profetas hebraicos existe a disposição para a crítica radical da sociedade.

Penso que ainda há muito a ser amadurecido no diálogo da Igreja com a esquerda, não para uma conciliação harmônica e impossível do cristianismo com o marxismo, mas na busca de alguns pontos de cooperação, do mesmo modo que ocorre com o conservadorismo de direita. As consequências da teologia da libertação ainda causam problemas lamentáveis, mas se a cristandade e a esquerda quiserem cooperação parcial ao invés de conciliação total, boas coisas surgirão.

quarta-feira, 20 de julho de 2011

Quem assume que a vida humana tem postura, tem escolha e tem livre agir, deve se perguntar se o finito basta. O finito é onde ajo, é o que eu tenho na carne, e é o que muita gente pode me confortar com explicações científicas.

Sim, eu posso viver de finito, mas particularmente ele não me convém, porque o finito pode conviver com a desgraça. A notícia mais escabrosa da página policial não impediu que no finito de hoje fizesse sol. Se o finito bastasse, eu poderia ser mais um a escandalizar quem tem dificuldade de infinito por causa da barbaridade do jornal. Não teria nenhuma obrigação empírica com o mundo, ou se na melhor das hipóteses tivesse, seria algo precário, relativo.

Mas, porque eu preciso de postura, aquela que me convém demanda algo que não cabe na finitude meu pensamento. Por isso eu me interesso é pelo verbo Daquele que se diz amor.

Contudo, se o finito é a nossa coisa acessível, meu apego a ele seria capaz de implorar para que Aquele verbo ficasse aqui conosco, nem por pouquíssimo tempo. Que Ele fizesse parte da história para me convencer do verbo infinito de que preciso.

Eis o mistério da Igreja. Não tive o privilégio do que aconteceu a mais de 2000 anos, mas a verdade é que facilmente eu fugiria do martírio daqueles que viram. Eis, de novo, o mistério da Igreja. Ela me aceita hoje para eu ver o infinito no sacrário.

terça-feira, 5 de julho de 2011

O esforço para o amor

Somos educados para o esforço. Desde criança, sabemos que é preciso ter força de vontade para se dar bem nos estudos e, à medida que crescemos, quanto mais tempo gastarmos com a aprendizagem de uma ocupação, mais chance teremos de alcançar bons postos no mercado de trabalho.

A virtude da fortaleza é inquestionável, mas podemos nos indagar se a época moderna não anda relegando a força de vontade apenas para os aspectos de formação social do "eu". Na educação moderna para a obstinação, é sempre sugerida uma recompensa que vem nas formas de status e de conta bancária avantajada. Quem estudar e trabalhar mais, terá mais vantagens.

Uma das coisas que mais percebo faltar na formação social é uma "educação para o amor". As pessoas são muito pouco instruídas a perseverar no amor. Confunde-se o amor com um sentimento que é despertado magicamente no coração, ao invés de ser aprendido como aquilo que verdadeiramente é, ou seja, um ato da inteligência e da vontade. Nesse sentido, o amor a Deus fica sujeito a modismos espirituais, o amor conjugal se torna apenas uma continuidade, por poucos anos, de algumas faíscas vibrantes do namoro e do noivado; o amor à família vira "apegos umbilicais" e o amor à humanidade vira simples filantropia, resolvida numa ligação para o "Criança Esperança".

Diante desse quadro social pouco inspirador, a crise da meia-idade se torna, então, uma das coisas mais previsíveis do mundo. É possível, inclusive, uma crise de meia-idade aos vinte e poucos anos! Nessas crises existenciais, o sujeito se percebe desmotivado e com a alma árida, afinal pode ser que nunca lhe ensinaram (ou ele não quis ouvir seu próprio coração) que perseverar nos assuntos do mundo é importante, mas mais valioso ainda é direcionar o espírito da vontade para o cultivo de boas relações pessoais.

Não quero relativizar a importância do aperfeiçoamento nos estudos e do trabalho bem feito, mas alerto para nossa imperfeição social, que tende a associar esforço com recompensas materiais. Porque o fato é que, antes de qualquer coisa, a fortaleza é para ser conduzida como serviço e como inclinação natural para fazer o bem.