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segunda-feira, 27 de junho de 2011

Discurso e poder

Meditação sobre a Igreja e o Estado laico

As discussões sobre a regularização do casamento entre homossexuais no Brasil estão muito ruins. É uma pena. Concordantes e discordantes, assim como acontece no debate sobre o aborto, tendem a se fixar em argumentos relacionados a elementos da fé religiosa, que são perfeitamente dispensáveis. Que um feto seja uma vida humana, com informações genéticas e comportamentos fisiológicos individuais, é fato que dispensa a crença religosa de que haja ali um ser humano. O bebê é visível, palpável. As técnicas científicas permitem tal observação, o que torna a defesa da vida uma posição fácil de ser aderida por qualquer indivíduo com um mínimo de respeito pela dignidade humana, independentemente de sua fé religiosa. Os bebês que são abortados agonizam e reagem, como podem, à morte forçada. Isso é materialmente e exaustivamente constatável, como a luz que o interruptor acende ou a água que sai da torneira, tratando-se, assim, de uma percepção completamente diferente de acreditar na Ressurreição de Nosso Senhor ou na Assunção da Virgem Maria.

Porém, deve-se admitir que figuras da própria Igreja tem dificuldade de se fazerem entendidos pelos meios de comunicação. Claro que o aborto ofende a Deus e este é o principal motivo para o repudiarmos, mas quando se participa da discussão política, os católicos devem seguir os anseios da Igreja, que deseja ardentemente por um Estado laico. Sim, o Papa é um defensor convicto do Estado laico. Por isso, quando se discute um tema como o aborto, os cristãos devem se pautar por argumentos que a razão de qualquer pessoa pode alcançar. São argumentos que precisam da nossa humildade. Poderíamos lançar grandes e belíssimos tratados ontológicos sobre a dignidade humana, mas temos de nos sujeitar a coisas pequenas e raciocínios mais simples, partindo, por exemplo, de imagens geradas por ultrassons que demonstram a quem quiser ver que existe, sim, uma vida humana no ventre materno. Se o conceito de "vida humana" for vago para alguns, ressaltemos que o sujeito não precisa nem acreditar que exista uma "alma humana" para reconhecer a vida material de um feto.

O discurso da Igreja sobre o aborto é politicamente necessário, porque a cristandade não pode se omitir diante de abusos contra o ser humano. Mas não é um discurso que tem a pretensão do poder político de fato. Igreja é uma coisa, poder público outra. Criticar a Igreja por, simplesmente, se pronunciar sobre qualquer tema é um absurdo. É irônico que alguns defensores da "democracia" não se atentem para isso, porque em última instância, não querer que a Igreja fale, é desejar um mecanismo de censura. Politicamente a Igreja tem exatamente a mesma pretensão da minha pessoa, quando escrevo neste espaço. Eu, Rafael, quando digo que repudio o aborto e faço disso uma luta pessoal, não tenho a pretensão de tomar o poder público para mim. Eu, Rafael, como Igreja Católica que também sou, faço o discurso politicamente necessário, mas não almejo com o gesto do discurso a política da execução. Uma coisa é poder de esclarecer, outra é poder de decretar.

Curiosamente, quando disse acima que a discussão sobre a regularização do casamento gay está muito ruim, uma das razões que me leva a pensar assim está relacionada a um certo absurdo de politizar algo de ordem perigosamente politizável. Explico melhor: diferentemente do aborto, que envolve, em cada caso, um gesto que pode ser tipificado criminalmente como homicídio, isto é, a retirada do feto do ventre materno; a questão homossexual envolve um costume que a cristandade, diferentemente de alguns países teocêntricos, de matiz fundamentalista islâmica, não tem a menor pretensão de criminalizar. Nesse sentido, politicamente, o homossexualismo interessa tanto para o cristão, como a masturbação, a fornicação ou o adultério. Todas essas práticas são desordenadas, do ponto de vista do fim da sexualidade humana, mas assim como a Igreja nunca levantou a estranha possibilidade de criminalizar indivíduos com comportamentos sexuais fora do contexto matrimonial, é possível dizer, com convicção, que a autêntica cristandade não persegue os homossexuais.

Politicamente, os cristãos podem ser solidários aos homossexuais, nos casos de ofensas verbais e físicas. Se um indivíduo humilhar um homossexual por essa condição particular, cabe à sociedade discutir formas de coibir esse tipo de conduta. Porém, politicamente, não se poderá esperar nunca de um cristão que feche os olhos para as consequências civilizatórias não apenas das relações homossexuais, mas da sexualidade que rebaixa o ser humano à categoria de objeto de prazer e que impede ou danifica a segurança dos núcleos que rejuvenescem as sociedades: as famílias. O homossexual, na tipificação grosseira da civilização moderna, caracterizada pelo ajuste dos indivíduos nos compartimentos do mundo da ação e do trabalho, corre o risco de ter sua existência reduzida à causa política. O homossexual perde a oportunidade de buscar a própria felicidade quando um assunto particular e naturalmente propenso a problemas torna-se mote de sua afirmação social.

De qualquer forma, o cristão deve se preocupar com os homossexuais, exatamente como se preocupa com a gigantesca maioria dos cidadãos comuns, que por falta de formação, não compreendem ainda a beleza do encontro do homem e da mulher, cujos corpos são feitos de uma linguagem que pede pela sexualidade integral e exclusiva. A própria castidade, dos solteiros e dos consagrados, ganha uma belíssima dimensão diante do que se guarda.

O sexo é uma extraordinária integração que, sendo uma fonte elevada de satisfação, precisa apenas ser vivido de forma a se respeitar ao máximo o seu significado. Ouso dizer que, por incrível que pareça, os costumes hedonistas levam à repulsa pelo sexo verdadeiramente bom. Exemplo rápido e simples: o slogan de que "sexo é bom - use camisinha" é de uma contradição gritante. Os preservativos são uma ofensa brutal, entre outras coisas, aos tempos que uma relação autenticamente satisfatória demanda. São, literalmente, corpos estranhos que, nos momentos em que as mulheres precisam sobremaneira ser atendidas por afetos profundos, apressam ou eliminam ritmos que os homens só podem aprender numa relação livre de utensílios que precisam ser retirados. Note-se que este é um caso de uma percepção sobre a sexualidade desprovida de argumentos religiosos.

Não quero, com toda essa discussão, subestimar o discurso da ordem religiosa, mas atentar para o fato de que, seguindo a mesma linha de raciocínio acima, trata-se de um depositório de palavras que precisa ser vivida de forma mais plena. A Igreja é para ser vivida no sacrário, na doutrina e nas nossos cotidianos preenchidos com comportamentos caridosos, compreensivos e pacientes. A política dos homens, eu penso, é para ser debatida a partir de pressupostos simples, com fundamentos ancorados numa razoabilidade atingível a todos, e às vezes no próprio Direito Natural.

segunda-feira, 20 de junho de 2011

A importância da vida interior

Presenciamos ao nosso redor pessoas com sintomas de ansiedade, irritação e medo. Nós mesmos experimentamos cotidianamente, em maior ou menor grau, essas desagradáveis visitas espirituais. De qualquer forma, é possível que melhoremos muito nosso enfrentamento com aquelas sensações.

É necessário, primeiramente, que tenhamos conversas interiores, de profunda autorreflexão. Não digo que precisemos rezar por horas e horas, nem que tenhamos de aprender técnicas de meditação, ou coisas do tipo. Para ter esse tipo de vida interior é preciso, antes de tudo, questionar as nossas atitudes: o que fazemos de bom, de ruim, de neutro – não importa. Precisamos reparar em toda a nossa conduta e perceber como reagimos interiormente a cada coisa. O que nos deixa agitados? O que nos deixa constrangidos? E como reagimos exteriormente às coisas do cotidiano? O que nos faz balançar as pernas? O que nos faz levantar o tom de voz? O que nos faz franzir a testa?

A partir desse mapeamento contemplativo, poderemos chegar à conclusão, por exemplo, de que determinada irritação pode ser consequência de uma ansiedade que não tínhamos aprendido a detectar. É um primeiro passo para lidarmos melhor com nosso nervosismo. Ter controle de si é um sintoma importantíssimo de fortaleza. Quem não se contempla, é capaz de se apavorar ou se enfraquecer por coisas mínimas.

Mas e quando os sintomas de stress chegam por fatores que fogem ao nosso controle? Quase sempre, é assim, certo? Sim. Mas a nossa resposta ao fator externo, seja um evento ou um comportamento desagradável de alguém, pode ser purificada, eu diria. Vivamos, em toda a nossa vida, a disposição para a caridade! Se nos desagradam, a primeira atitude é encarar o ato como uma mortificação que nos leva a Deus, ao sumo bem. Foi permitido tal desgosto, porque eu posso ter força o suficiente para encará-lo, ainda que eu pareça ser a pessoa mais frágil do mundo.

Se Deus fala ao universo, Ele fala comigo todo o tempo. Mesmo na tristeza que nos atinge, Deus nos fala como podemos ser bons. Todas as sensações espiritualmente desagradáveis são vazios que gritam por preenchimento do que é bom. E o que é bom, existe em abundância inimaginável.

Ter vida interior: conversar consigo mesmo e perceber a presença de Deus em todas as coisas do cotidiano são dicas valiosas para melhorar nossa existência. Faremos o bem para os outros e cuidaremos melhor desse tesouro que nos foi dado, o coração humano.