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segunda-feira, 30 de maio de 2011

Meditação sobre o espírito de serviço

É preciso recuperar nossa admiração nata pelo espírito de serviço. Numa época em que as ocupações tidas como serviçais são rebaixadas na bolsa de valores humanos, precisamos nos dar conta de como é imaturo não reconhecer a dignidade do servir. Saber servir faz parte da própria educação para o amor.

Insisto nos meus textos sobre a fugacidade do mundo. As coisas mundanas, por mais imponentes que sejam, tendem ao pó e às cinzas. Se a existência não for vivida a partir de perspectivas transcendentes, a morte será o único destino certo. O orgulho do poder e do ter não adianta nada, porque é uma experiência fechada em individualismo, ao passo que o espírito do serviço envolve a pessoalidade aberta. A satisfação em servir e a gratidão que sentimos quando somos brindados reflete como a humanidade é sedenta por entendimento e sentido.

Que época estranha, quando a nobre ocupação de cuidar de uma casa é tida tolamente como submissão!

Longe de mim dizer que as mulheres não tenham de ocupar postos no mundo do trabalho, mas é uma verdade claríssima que, nos dias de hoje, uma moça que queira se dedicar exclusivamente aos assuntos da família, na organização do lar, é muito mais livre do que uma colega de geração que projeta no mercado de trabalho a sua principal fonte de satisfação pessoal. É absurdo que uma mulher que opte pelas tarefas de casa sofra qualquer tipo de pressão social para abandonar sua liberdade em troca de serviços prestados para uma organização qualquer, afinal não pode haver nenhuma empresa mais importante do que o lar. Tudo pode ser serviço, mas é bem melhor o “lucro” perceptível no cuidado das pessoas amadas do que no dinheiro que geralmente se gasta em demandas consumistas e pagamento de supostas “boas escolas” para os filhos.

Com medidas bastante simples, podemos arejar nossos corações para o reconhecimento da magnanimidade do serviço. Diariamente, somos tomados por preguiças aparentemente insignificantes, mas que somadas ao ritmo incessante da rotina podem criar desentendimentos frequentes. Pode ser que tenhamos de conviver com alguém de espírito mais distraído, por exemplo. Volta e meia, quando já estamos dentro do carro, preparados para sair, essa pessoa esquece alguma coisa dentro de casa. Em vez de criticar, por que nós mesmos não oferecemos, com um sorriso tranquilo no rosto, para pegar o que foi esquecido? Ainda que o impulso inicial seja bradar que estamos muito atrasados, ou que a pessoa deveria ser mais atenta, conter o ímpeto de reclamar é sinal de fortaleza e domínio de si. O que poderia resultar em discussão se torna serviço. Saímos de nossa comodidade e, fazendo um favor para o outro, criamos um pouco mais de ternura no cotidiano.

O espírito de serviço é valioso, porque é simples. Tarefas pequenas e invisíveis nos aparecem em diversas ocasiões e não podemos boicotá-las. Talvez, por um desordenado amor próprio, pensamos que determinados serviços são humilhantes ou que a outra pessoa não mereceria nossa aparente submissão. Queremos manter nossa “boa imagem”, sem perceber como são frágeis nossos vaidosos conceitos de autodefesa. Somos o que somos diante de Deus. Nenhuma opinião sobre a nossa “imagem” abala o que verdadeiramente somos. Por outro lado, recusar-se a ser generoso é que fragiliza o ser, porque isso é uma mentira que molda o mundo ao tamanho do nosso “eu”.

Meditemos sobre a majestade de Nosso Senhor, que veio “não para ser servido, mas para servir e dar sua vida em resgate por uma multidão (Mt 20, 26):

Vós me chamais Mestre e Senhor, e dizeis bem, porque eu o sou. Logo, se eu, vosso Senhor e Mestre, vos lavei os pés, também vós deveis lavar-vos os pés uns aos outros. Dei-vos o exemplo para que, como eu vos fiz, assim façais também vós. Em verdade, em verdade vos digo: o servo não é maior do que o seu Senhor, nem o enviado é maior do que aquele que o enviou. Se compreenderdes estas coisas, sereis felizes, sob condição de as praticardes. (Jo 13, 13-17)