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domingo, 17 de abril de 2011

Disposição para a fidelidade



Amizades verdadeiras pressupõem admiração mútua, confidências íntimas e vontade de crescimento pessoal para si e para o outro. Se não for assim, o companheirismo serve apenas para apaziguar um pouco a solidão individual, em meio a diversões rápidas e esquecíveis, o que não é nada confortável se tivermos em mente que o ser humano tem sede de relacionamentos profundos. Se valorizarmos devidamente a amizade, chegaremos à conclusão de que se ela ocorre entre pessoas de sexos opostos, o relacionamento afetivo será o seu desdobramento mais pleno e sincero. Por isso, eu acredito que as pessoas compromissadas já encontraram o “melhor amigo” e que dali em diante, o ciclo de amizades deverá permanecer restrito a pessoas do mesmo sexo. Vou adiante e arrisco dizer que, num relacionamento, se o desapego livre e natural para com as amizades do sexo oposto não vier, é sinal de que não existe ainda o amadurecimento necessário para o bem estar do casal. Um rapaz deve se perguntar, por exemplo, por que outras moças também lhe despertam a vontade de ser afetuoso. Será que esse rapaz está preparado para as exigências do amor entre homem e mulher, que demanda fidelidade e compromissos profundos e afetuosos com uma só pessoa? Será que esse rapaz tem em seu coração que fidelidade e felicidade são um elo inquebrantável? Devemos ter em mente que, por mais inocente ou despretensiosa que possa parecer uma amizade, o ser humano é vulnerável e carente. Pessoas podem se apaixonar pelo modo como nos comportamos e, para uma pessoa compromissada, mesmo que ela não queira, o sexo oposto pode ser atraído por coisas mínimas, como uma fala, um sorriso ou um olhar. Para evitar o transtorno de uma terceira pessoa apaixonada, o melhor a ser feito é evitar a ocasião. O ser humano é convidado para a fidelidade. É um desejo de todos. Até quem diz o contrário, se não fosse tão surdo de cinismo, ouviria essa verdade gravada no coração. E para que socialmente a fidelidade conjugal deixe de ser um benefício de poucos “escolhidos”, é preciso que seja divulgada uma vontade firme de desejar um só amigo, de corpo e de alma. É preciso que as pessoas saibam que nada é mais confortável do que contar com o mesmo amigo todos os dias e que nada é mais digno para os deleites que nos foram dados, deixar que eles sejam propriedade de uma só pessoa amada.

quinta-feira, 7 de abril de 2011

Quando um pároco se vai...



Leio nos jornais que os frequentadores da comunidade Sagrada Família estão aflitos com a partida do pároco Luiz Augusto, um sacerdote que há 15 anos empreende grandes obras de evangelização na outrora pacata Vila Canaã. Os fiéis estão muitos chateados com o bispo D. Washington, porque temem que tudo o que o pároco construiu possa se enfraquecer nas mãos de outro "administrador". Um abaixo-assinado que pede a manutenção de Luiz Augusto circula na internet. O padre Luiz Augusto é um homem muito caridoso, firme na fé e responsável, quem sabe, pela conversão de milhares de pessoas. É uma figura que enriquece muito a Arquidiocese de Goiânia. Porém, muitos de seus admiradores precisam ter em mente que a Igreja não é movida pela lógica do empreendedorismo. Aliás, nem deve ser. É preferível cativar uma "ovelha perdida" para os planos da eternidade do que conduzir massas maleáveis a gostos passageiros. Sucesso popular é programa policial de televisão, show de axé, bombril e jogo de futebol. Essas coisas podem ser medidas por planejamentos estratégicos, reuniões com anunciantes e táticas de sedução sentimentais, porque são naturalmente fadadas ao descarte futuro. Nesse sentido, pensar numa Igreja para as "massas" envolve riscos mercadológicos, o que não tem absolutamente nada a ver com os rumos da instituição que o próprio Cristo conferiu a São Pedro, o primeiro papa. Se é fundamento do catolicismo que exista uma fidelidade ao bispo e ao papa, os fiéis indignados com D. Washington confirmam a fragilidade da Igreja articulada para as massas. Como católico, devo todo meu respeito ao padre Luiz Augusto ou a qualquer sacerdote que seja um sucesso entre as massas. Diante de um padre Fábio de Melo, por exemplo, eu me ajoelharia para receber o Cristo que só os sacerdotes manifestam pelos sacramentos. E justamente porque devemos respeitar a condição do sacerdócio, para o bem do padre Luiz Augusto e de toda a Igreja, é bom que ele se estabeleça numa outra paróquia se isso for vontade do bispo. Cito novamente no blog, uma passagem de Sob o sol de satã, de Georges Bernanos (1888-1948), onde o autor sonda brilhantemente a intimidade do que é ser um sacerdote "superior" na Igreja: "Você é um homem bem diferente de mim, tornou ele, você me virou como a uma luva. Pedindo-o ao Monsenhor, eu tinha tido esse sonho meio ingênuo de trazer à minha casa um padre jovem, com desfavoráveis notas, destituído dessas qualidades naturais que tanto me seduzem… um padre que eu iria formar o melhor que pudesse para o ministério paroquial… No fim da vida isso representava pesadíssimo encargo. Mas também eu era feliz demais em minha solidão para aí findar meus dias em paz. O julgamento de Deus deve surpreender-nos em pleno trabalho… O julgamento de Deus! … Mas, agora vejo que é você, Donissan quem me forma, disse ele, depois de longa pausa".

quarta-feira, 6 de abril de 2011

Os negócios do mago


Enquanto lia os primeiros capítulos do livro “O hobbit”, de J.R.R. Tolkien, apenas uma coisinha me incomodava naquela fantástica saga. Na expedição constituída pelo pacato Hobbit, pelos anões guerreiros e pelo mago Gandalf, cada vez que o grupo se metia numa enrascada, uma mágica qualquer resolvia o problema. Gandalf se tornava, assim, um personagem muito previsível. Porém, num determinado momento, Gandalf deixa o grupo para tratar de outros “negócios”. O hobbit e os anões terão de continuar a trajetória em busca dos tesouros escondidos pelo dragão sem as intervenções milagrosas do mago. A beleza da obra de Tolkien se encontra nessas sutilezas. Gandalf representa uma figura paterna: um pai, um sacerdote ou um conselheiro que cada um tem em suas vidas. Quando ainda somos pequenos ou imaturos, há sempre alguém para intervir por nós. Essas pessoas que nos formam não estarão conosco em todos os momentos, mas foram elas que nos abriram caminhos. Foram elas que nos ensinaram a ser “magos” também, porque um dia iremos intervir por nossos cônjuges, filhos e amigos mais inexperientes. Na obra de Tolkien, ao fim da narrativa, Gandalf volta. Essa volta do mago indica que mesmo depois de crescermos, ainda precisamos daqueles que nos ajudam. Inclusive, eu me pergunto seriamente se o próprio Gandalf, quando ia tratar de seus “negócios”, não tinha magos mais experientes para lhe ajudar. É bem provável que sim.