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quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

Santo Tomás de Aquino, por Chesterton

Artigo de G. K. Chesterton, publicado originalmente na revista The Spectator, em 27 de fevereiro de 1932, antes do autor lançar seu livro sobre Santo Tomás de Aquino. A versão original está disponível aqui.

Tradução: Rafael Carneiro Rocha

A dificuldade de falar sobre Santo Tomás de Aquino neste breve artigo é selecionar qual aspecto de sua mente multifaceteada seria melhor para sugerir a dimensão ou a escala dela. Por causa do seu corpo opulento que carregava seu igualmente maciço cérebro, ele era chamado de “O boi”. É assim: qualquer tentativa de reduzir tamanha inteligência para um artigo de tablóide se parece com todas as piadas possíveis sobre um boi numa xícara de chá. Ele foi um dos dois ou três gigantes; um dos dois ou três maiores homens que já viveram; e eu não ficaria surpreso se ele realmente fosse, independentemente da santidade, o maior deles. Outra maneira de considerar Santo Tomás de Aquino com outros gigantes é assumir que a proporção varia de acordo com o que os outros homens são comparáveis ou não a ele. Não teremos uma escala de grandiosidade até constatar que poucas criaturas históricas poderiam rivalizar com o santo.

Assim, para começar, poderemos situá-lo no contexto da vida ordinária de seu tempo e narrar suas aventuras no meio dos contemporâneos dele. Sozinho, ele lançou uma luz sobre a história, a despeito da luz que lançara sobre a filosofia. Nascido em berço de ouro, não muito distante de Nápoles, quando este filho de um grande nobre de Aquino revelou seu desejo de se tornar monge, pareceria, de acordo com aquela época, que tudo seria facilitado para ele. Uma figura influente poderia ser admitada, com decoro, na hoje antiga rotina dos beneditinos; como o filho mais novo de um escudeiro teria se tornado um pároco daquelas redondezas. Mas o mundo de então havia sido pisoteado em todos os seus caminhos por uma revolução religiosa. Quando o jovem Tomás insistiu em se tornar um dominicano – um frade vagante e pedinte – seus irmãos se utilizaram de táticas como perseguição, sequestro e silêncio no cárcere. Era como se o filho de um latifundiário se tornasse um cigano ou um comunista. Contudo, ele conseguiu se tornar frade e o discípulo preferido do grande Santo Alberto Magno (1). Em seguida, se estabeleceu em Paris, onde foi um proeminente defensor das ordens mendicantes (2) que surgiam em Sorbonne e onde quer que fosse. Adiante, ele se encontrou no cerne da controvérsia sobre Averróis (3) e Aristóteles, que refletiu na reconciliação entre a fé cristã e a filosofia pagã. Mesmo em sua vida social, as preocupações de espírito lhe ocupavam muito. Homem grande, corpulento, manso e bem-humorado, às vezes era dado a transes. Durante um jantar com São Luís (4), o rei francês, Santo Tomás ensimesmou-se de tal forma que, subitamente, bateu na mesa com o punho e bradou: “Isto vai liquidar os maniqueus!” O rei, com a fineza irônica e inocente, pediu para um serviçal anotar o raciocínio de Santo Tomás, para que as palavras não fossem esquecidas.

Então, ele poderia ser comparado com santos e teólogos mais místicos do que dogmáticos. Como homem sensato, Santo Tomás era místico privadamente e, em público, um filósofo. Tudo bem que ele tinha “experiência religiosa”; mas ele não pedia, à maneira moderna, que outras pessoas racionalizassem sua experiência. Sua vivência religiosa incluía casos bem comprovados de levitação em êxtase; e uma aparição da Santíssima Virgem, que o confortou com a ótima notícia de que ele nunca se tornaria um bispo. Similarmente, poderíamos comparar a filosofia tomista com outras, nos aspectos em que se diferenciava de Escoto (5) ou São Boaventura (6). Mas não há espaço para distinções aqui, além de uma genérica: que Santo Tomás tende relativamente para o racional, enquanto os outros se aproximam do místico, ou poderíamos dizer, romântico. Em qualquer caso, é certo que nunca houve um teólogo maior, e provavelmente, nunca um santo tão grandioso. Porém, afirmar que ele era maior do que São Domingos ou São Francisco não sinalizaria (no sentido que pretendemos) para o quão grande ele foi.

Para entender a sua importância, devemos opor Santo Tomás a duas ou três possibilidades de credos cósmicos: ele é todo o intelecto cristão falando ao paganismo ou ao pessimismo. Ele argumenta ao longo dos tempos com Platão ou com Buda; e tem sempre o melhor raciocínio. Sua mente era tão vasta e suas conexões tão bonitas que sugeri-la seria discutir um milhão de coisas. Mas talvez a melhor simplificação seja esta: São Tomás confronta outros credos do bem e do mal, sem negar todo o mal com uma teoria de dois níveis de bondade. A ordem sobrenatural é o bem supremo, como para qualquer mística oriental; mas a ordem natural é boa, tão solidamente boa como é para qualquer transeunte das cidades. Isto é o que “liquida os maniqueus”. A fé é maior do que a razão, mas a razão é maior do que qualquer outra coisa, e tem direito supremo em seu próprio domínio. Isto é o que antecipa e responde o clamor antirracional de Lutero e dos outros; como um poeta pagão me disse certa vez: “A Reforma aconteceu porque as pessoas não tiveram cérebro para entender Aquino”. A Igreja é mais imortalmente importante do que o Estado, mas por tudo, o Estado tem os seus direitos. Esta dualidade cristã sempre esteve implícita, assim como a distinção de Cristo entre Deus e César, ou a diferença dogmática entre as naturezas de Cristo. Mas Santo Tomás tem a glória de ter apanhado a duplicidade como indício de milhares de coisas; e assim forjou o único credo em que os santos podem ser sãos. Talvez ele apresenta, principalmente para o mundo moderno, o único credo em que os poetas podem ser sãos. Por agora não há ninguém para liquidar os maniqueus; e toda a cultura está infectada com um senso vago e imundo de que a natureza e todas as coisas atrás e debaixo de nós são más, e que só há glórias para os elevados eruditos. Santo Tomás exaltou a Deus sem diminuir o homem, e exaltou o homem sem rebaixar a Natureza. Desse modo, ele fez um cosmos do senso comum e a vientum terra, a terra dos vivos. Sua filosofia, assim como a sua filosofia, é do senso comum. Não se tortura o cérebro com desesperadas tentativas de explicar a existência, explicando-a. Os primeiros passos da mente tomista são os primeiros passos de qualquer mente honesta; assim como as primeiras virtudes de seu credo podem ser de qualquer camponês de boa vontade. Ele, que combinou tantas coisas, combinou também a sutileza intelectual e a simplicidade espiritual.

O sacerdote que compareceu ao leito de morte deste Titã da energia intelectual, cujo cérebro tinha devassado as raízes do mundo, perfurado cada estrela e caminhado por todo o universo do pensamento e até do ceticismo, disse que, ao ouvir a confissão do moribundo, imaginou de repente que ouvia a primeira confissão de uma criança de cinco anos.

Notas do tradutor:(1) Doutor da Igreja, também conhecido como Alberto de Colônia, morreu em 1280. Foi pioneiro nos estudos de Aristóteles aplicados ao pensamento cristão e se dedicou a diversas ciências, como agricultura, física, mineração, navegação e química.

(2) Os frades e as freiras das ordens mendicantes, como os agostinianos e os carmelitas, vivem em comunidades fechadas, mas tem apostolado vagante em serviço aos pobres. São Francisco de Assis e São Domingos são exemplos importantes de fundadores de ordens mendicantes, os franciscanos e dominicanos.

(3) Os árabes contribuíram para a redescoberta de Aristóteles na Europa medieval. O filósofo muçulmano Abu al-Walid Muhammad Ibn Ahmad Ibn Munhammad Ibn Ruchd, ou na denominação latina Averróis, foi um dos grandes estudiosos do grego naquela época. Porém, apesar de ter inspirado Santo Tomás, Averróis, que viveu um século antes dele, defendia teses que se chocavam com o pensamento cristão. Em sua teoria da dupla verdade, a alma é imortal e o mundo é criado (de acordo com a fé), e a alma é corruptível e o mundo é eterno (de acordo com a razão). Santo Tomás de Aquino, firme na tese agostiniana de que a verdade é única, se opunha ao naturalismo racional de Averróis.

(4) São Luís da França foi rei dos doze anos até o fim de sua vida, em 1270. É considerado um monarca cristão ideal, cuja aura de santidade afetou as épocas vindouras. Diversas insituições e locais ao redor do mundo recebem o seu nome.

(5) Beatificado em 1993 pelo Papa João Paulo II, Duns Scot (ou Scotus) se posicionava contrário à filosofia de Santo Tomás de Aquino. Conhecido como o “Doutor Sutil”, ele sustentava a separação entre a fé e a razão. Viveu de 1265 a 1308.

(6) São Boaventura (1221-1274), contemporâneo de Santo Tomás de Aquino, foi eleito ministro-geral dos franciscanos. Assim como Escoto, sua filosofia tinha matiz agostiniana e confrontava o aristotelismo.




segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

A voz resistente da nobreza

O discurso do rei é uma maravilha, porque é apenas um filme sobre a gagueira de George VI. As falhas que poderiam prejudicar a obra, como omissão de episódios históricos, superficialidade de personagens e triunfalismo melodramático existem positivamente, para isolar dramaticamente a gagueira do rei. A fala de George VI importa muito, porque ela também é metáfora do drama da realeza.

Os valores aristocráticos não encontram voz na modernidade desencantada e coube àquele ainda muito recente George VI uma missão até certo ponto irônica. Os ideais da nobreza, decadentes diante da opinião pública contemporânea, resistem bravamente quando um gago se torna capaz de estimular, com a sua voz, os sentimentos esperançosos de uma nação durante a II Guerra Mundial.

Envolto em cenografia grave, iluminado por luzes nebulosas, e às vezes enquadrado de forma deslocada pelo diretor Tom Hooper, o ator principal Colin Firth projeta as angústias do rei como centro nervoso de todas as cenas. Na superficialidade aparente do filme, até mesmo a postura de um estadista genial como o primeiro ministro Winston Churchill se torna secundária diante do olhar preocupado do rei.

A dificuldade de falar para a nação em programas de rádio pode parecer ridícula diante de um mundo que ainda presenciaria os horrores da II Guerra Mundial, mas para o rei aquilo era um fardo existencial que o colocava tão temeroso como qualquer vítima solitária de uma guerra.

Numa das cenas mais interessantes do filme, cujos diálogos escritos por David Seidler investem num humor profundo e pungente, o protagonista assiste a um cine-jornal com a sua família. Quando ele é perguntado por sua filha o que Hitler dizia para a multidão, o rei responde que não sabe, mas num misto de medo e admiração, completa que o alemão fala "muito bem".

O rei teve de aprender, do seu modo, a falar muito bem e sua mulher tomou a responsabilidade de buscar alguma saída. Como outro sintoma de precariedade que o filme sinaliza, o mestre que ela encontrou para o marido foi um ator fracassado interpretado por Geoffrey Rush. As cenas de treinamento obedecem a um esquema dramático previsível de amizade construída em meio a hesitações, mas o confronto dos atores Firth e Rush é fundamental para a força do filme. São homens doloridos e conscientes das dores do mundo, mas que lutam contra a tentação do desespero.

Ao fim, o público cinematográfico, assim como a nação britânica, aplaude. O discurso do rei é espetacular.

domingo, 13 de fevereiro de 2011

Sobre o noivado

Do livro: Questões atuais do cristianismo, de São Josemaria
Ponto 105


Atualmente, há quem defenda a teoria de que o amor justifica tudo, chegando à conclusão de que o noivado é como um "matrimônio em experiência". Pensam que é inautêntico e retrógrado não seguir o que consideram imperativos do amor. O que acha desta atitude?

Acho o que deve achar uma pessoa honesta e, especialmente um cristão: que é uma atitude indigna do homem e que degrada o amor humano, confundindo-se com o egoísmo e com o prazer.

Retrógrados, os que não pensam ou não procedem dessa maneira? Retrógrado é antes quem retrocede até à selva, não reconhecendo outro impulso além do instinto. O noivado deve ser uma ocasião para aprofundar o afeto e o conhecimento mútuo. E, como toda a escola de amor, deve estar inspirado não pela ânsia da posse, mas pelo espírito de entrega, de compreensão, de respeito, de delicadeza. Por isso, há pouco mais de um ano, quis oferecer à Universidade de Navarra uma imagem de Santa Maria, Mãe do Amor Formoso, para que os rapazes e moças que freqüentam aquelas Faculdades aprendessem dEla a nobreza do Amor — do amor humano também.

Matrimônio em experiência? Sabe bem pouco de amor quem fala assim! O amor é uma realidade mais segura, mais real, mais humana: algo que não se pode tratar como um produto comercial, que se experimenta e depois se aceita ou se joga fora, conforme o capricho, a comodidade ou o interesse.

Essa falta de critério é tão lamentável que nem sequer parece necessário condenar quem pensa ou procede assim: porque eles mesmos se condenam à infecundidade, à tristeza, a um afastamento desolador, que padecerão logo que passem alguns anos. Não posso de rezar muito por eles, de amá-los com toda a minha alma e tratar de lhes fazer compreender que continuam a ter aberto o caminho do regresso a Jesus Cristo; e que se se empenharem a sério, poderão ser santos, cristãos íntegros, pois não lhes faltará nem o perdão nem a graça do Senhor. Só então compreenderão bem o que é o amor: o Amor divino e também o amor nobre; e saberão o que é a paz, a alegria, a fecundidade.

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

Arrogância ingênua


Por Dietrich von Hidelbrand


Pertence à essência da História que a atitude do Homem perante a vida sofra variações, que alguns valores ressaltem com mais claridade numa época do que em outra, enquanto outros recebem menos atenção do que antes. Além disso, num determinado período ganham mais força certos perigos que em outros momentos eram insignificantes.

Contudo, mesmo que seja importante reconhecer esse ritmo próprio da natureza da História e do Homem, seria totalmente equivocado conferir a algumas épocas um significado arbitrário no que se refere a certos problemas humanos básicos. Em comparação com o que permanece inalterado, o que muda é secundário. Uma forma peculiar de arrogância ingênua é crer que a época em que se vive é completamente diferente de todas as anteriores e que os problemas do passado já não existem.

Muitas pessoas acabam ficando intoxicadas por essa idéia tão pitoresca. É de se admirar que esse seu modo de pensar passe por alto que, se isso for certo, então todas as suas “novidades” e os seus “nunca antes visto” — dos quais se orgulham tanto — tornar-se-ão antiquados dentro de pouco tempo e já não estarão “de acordo com a realidade”... Esquecem-se de que, se tiverem razão e o “real” for somente aquilo que muda, terão que pagar um preço muito alto para poderem aquecer-se ao sol daquilo que “nunca existiu antes” e olhar com desdém para o passado. E o preço será este: terão ver que tudo aquilo que agora os deslumbra e satisfaz tem uma vida muito curta e em breve será lançado fora como sucata.

Juntamente com a exagerada diferenciação entre as épocas — e com a ingênua arrogância que a acompanha — é comum encontrarmos a ilusão de que os tempos atuais, além de serem completamente diferentes de todos os anteriores, são também superiores a eles. Embora não se diga isso abertamente, tende-se a admitir como certo que qualquer mudança representa algum tipo de progresso.

Em todo o caso, pode-se dizer em seu favor que esse conceito simplista do progresso segue normas válidas em si mesmas: ainda crê na verdade absoluta que, com o passar do tempo, será — ao menos espera-se que o seja — cada vez mais reconhecida. Mas é muito mais perigosa e de maior alcance a atitude mental que considera a realidade histórico sociológica de uma idéia como equivalente à sua validez e verdade. Essa atitude é muito mais perigosa porque transforma a verdadeira essência da verdade e dos valores em algo vazio.

É preciso sublinhar enfaticamente a seguinte realidade: o fato de uma idéia, por assim dizer, impregnar a atmosfera durante algum tempo, ou de que numa determinada época prevaleçam certas expectativas e certas tendências, não nos dá a menor informação sobre a verdade ou falsidade dessa idéia, nem muito menos sobre a legitimidade das correntes de pensamento desse período em concreto.

Se a História nos pode ensinar algo de absolutamente certo é o enorme perigo que há em que as pessoas se infectem com as correntes de pensamento equivocadas típicas do seu tempo. Esse perigo é maior quando acreditamos erradamente— segundo uma mentalidade ainda hoje muito difundida — que certas idéias, tendências e expectativas, simplesmente por dominarem a sua época, por saturarem o ar, devem ser consideradas como a expressão do “espírito do mundo” (Weltgeist, no sentido hegeliano) ou do “espírito da época” (Zeitgeist). A realidade histórico sociológica de uma idéia ou tendência não é nem tão irresistível que implique o dever de aceitá-la como um destino fatal, nem confere ao seu conteúdo qualquer tipo de dignidade: não torna um erro menos errado, nem uma atitude má menos má, nem faz com que algo objetivamente sem valor passe a ter algum.

Deixar-se fascinar pelas tendências intelectuais do tempo presente é abdicar da própria liberdade espiritual; é deixar-se levar pelos vaivéns da História; é deixar-se arrastar pelas correntezas de uma época; é uma despersonalização. A atitude oposta é a de quem sempre emerge do tempo para vir ao mundo da verdade e dos valores morais, para compreender a mensagem e captar as verdades e os valores imutáveis que a hora presente possa conter como “tema”, mas à luz da eternidade. Mais concretamente, para nós, católicos, essa atitude significa uma constante conversio ad Deum, “conversão a Deus”.


Disponível aqui.

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

Para entender a Idade Média


Por G. K. Chesterton



É inteiramente razoável que os homens prósperos do nosso tempo não saibam História. Se a conhecessem, teriam de conhecer a história muito pouco edificante de como se tornaram prósperos...
É inteiramente razoável, digo, que não saibam História: mas por que raios pensam que sabem? Aqui está uma opinião, tomada a esmo do livro de um dos mais cultos dentre os nossos jovens críticos, obra muito bem escrita e inteiramente digna de confiança – quando trata do seu próprio tema, que é um tema moderno. Diz esse escritor: “Na Idade Média, houve pouco ou nenhum avanço social ou político” até a Reforma e a Renascença.

Ora, eu poderia igualmente bem afirmar que, no século XIX, houve pouco avanço na ciência e na técnica até a vinda de William Morris (1), e depois justificar essa afirmação dizendo que não tenho nenhum interesse pessoal por teares a vapor ou águas-vivas – o que certamente é o caso. Porque isto é tudo o que o escritor realmente quis dizer: que não tem nenhum interesse pessoal por arautos ou abades mitrados. Tudo isso está muito bem; mas por que, ao escrever sobre coisas que não existiam na Idade Média, esse autor sente a necessidade de dogmatizar sobre um assunto de que evidentemente nunca ouviu falar? E sobre o qual, apesar de tudo, talvez ainda se pudesse contar uma História muito interessante?

Mas tomemos agora a Baixa Idade Média, duzentos anos depois da conquista normanda e praticamente outro tanto antes do início da Reforma. As grandes cidades surgiram; os cidadãos são privilegiados e importantes; os trabalhadores organizaram-se em Corporações de Ofício livres e responsáveis; os Parlamentos são poderosos e litigam com os próprios reis; a escravidão desapareceu quase por completo; abriram-se as grandes Universidades, que ministram esse programa de ensino tão admirado por Huxley (3); repúblicas tão orgulhosas e patrióticas como as dos antigos pagãos erguem-se como estátuas de mármore ao longo da costa mediterrânea; e por todo o norte os homens construíram igrejas tão grandiosas que os homens talvez nunca mais as igualem. E isso – que, na sua maior parte, foi realizado mais propriamente não em dois, mas em um século –, é a isso é o que o nosso crítico chama “pouco ou nenhum avanço social ou político”. Praticamente não há instituição moderna importante que tenha influenciado a sua vida – da escola em que estudou ao Parlamento que o governa –, que não teve os seus principais avanços na Idade Média.

Se alguém pensa que escrevo isso por pedantismo, espero poder mostrar-lhe em um momento que tenho um objetivo mais humilde e mais prático. Quero considerar a natureza da ignorância, e começo por dizer que, em qualquer sentido escolar e acadêmico, sou eu mesmo muito ignorante. Assim como dizemos de um homem como Lord Brougham (4) que tinha um grande conhecimento geral, eu diria que tenho uma grande ignorância geral.

Só que este é exatamente o ponto a que pretendia chegar. É um conhecimento geral e uma ignorância geral: sei pouco de História, mas sei um pouco de quase toda a História. Não sei muito, digamos, sobre Martinho Lutero e sua Reforma, mas sei que ela fez uma diferença enorme; ora, não saber que o rápido progresso dos séculos XII e XIII fez uma diferença enorme é pelo menos tão extraordinário como nunca ter ouvido falar de Martinho Lutero. Também não estou muito bem informado sobre os budistas, mas sei que se interessam por filosofia; não saber que os budistas se interessam por filosofia, acredite em mim, seria tão chocante como não saber que os medievais se interessavam pela experimentação e pelo progresso políticos.

Da mesma forma, não sei muito sobre Frederico o Grande. Na minha infância, a enorme coleção de volumes de Carlyle sobre o assunto inspirava-me medo: parecia haver tantas coisas a conhecer! No entanto, apesar desses receios, eu seria perfeitamente capaz de adivinhar, com uma razoável probabilidade de acerto, o tipo de assunto que esses volumes continham. Por exemplo, eu arriscaria (penso que não incorretamente) que os volumes deviam conter a palavra “Prússia” em um ou mais lugares; que, de tempos a tempos, se falaria de guerra; que se faria alguma menção de tratados e fronteiras; que a palavra “Silésia” poderia ser encontrada caso se procurasse diligentemente, bem como os nomes de Maria Teresa e Voltaire; que em algum lugar de todos aqueles volumes, o seu grande autor diria se Frederico o Grande tivera um pai, se chegara a casar-se, se possuíra grandes amigos, se tivera algum hobby ou aficção literária de qualquer tipo, se havia morrido no campo de batalha ou na cama, e assim por diante. Se eu tivesse reunido coragem suficiente para abrir um daqueles volumes, provavelmente teria encontrado alguma coisa, ao menos nessas linhas gerais.

Agora, troque a imagem; imagine o jornalista ou homem de letras comum, jovem e bem educado, recém-saído de uma escola pública ou faculdade, parado diante de uma coleção ainda maior de livros ainda maiores das bibliotecas da Idade Média – digamos, todos os volumes de São Tomás de Aquino. Digo-lhe que, de nove casos em dez, aquele jovem bem-educado não tem a menor noção do que iria encontrar naqueles volumes encadernados em couro. Pensa que irá encontrar discussões sobre as capacidades dos anjos de se equilibrarem sobre pontas de agulhas, e talvez o fizesse. Mas afirmo que ele não pensa – nem de longe – que irá encontrar um professor universitário a discutir quase todas as coisas que Herbert Spencer discutiu: política, sociologia, formas de governo, monarquia, liberdade, anarquia, propriedade privada, comunismo, e todas as variadas idéias que, no nosso tempo, se dedicam a brigar em nome do futuro “socialismo”.

Igualmente, não sei muito sobre Maomé ou o maometanismo. Não levo o Alcorão para ler na cama toda noite. Mas, se em determinada noite o fizesse, há pelo menos um sentido em que sei o que não encontrarei nele. Suponho que a obra não transbordará de fortes encorajamentos ao culto dos ídolos; que não se cantarão ali em alta voz os louvores do politeísmo; que o caráter de Maomé não será submetido a nada que se parece com o ódio e o ridículo; e que a grande doutrina moderna da irrelevância da religião não será enfatizada sem necessidade.

Mas troque novamente a imagem, e imagine o homem moderno (o pobre homem moderno) que tivesse levado um volume de teologia medieval para a cama. Ele esperaria encontrar ali um pessimismo que não há, um fatalismo que não há, um amor à barbárie que não há, um desprezo pela razão que não há.

Aliás, seria na verdade muito bom que fizesse a experiência. Far-lhe-á bem de uma forma ou de outra: ou o fará dormir – ou o fará acordar.


(1)     William Morris (1834-1896): Artista e escritor inglês, contribuiu com grande sucesso para a valorização e o aprimoramento das mais variadas formas de arte (desde a decoração até a arquitetura e a iluminura), chegando mesmo a fundar empresas bem-sucedidas nesse ramo (entre elas, a tipografia Kelmscott Press, em 1890). Ao fim da vida, deixou de lado os seus êxitos artísticos e empresariais para dedicar-se a difusão de idéias socialistas.

(2)     A conquista da Inglaterra pelos normandos comandados por Guilherme o conquistador ocorreu no ano de 1066.

 (3)     Thomas Henry Huxley (1825-1895): biólogo inglês, amigo de Charles Darwin e um dos maiores defensores e divulgadores da teoria evolucionista, o que fez especialmente através do seu livro Man´s Place in Nature (“O lugar do homem na natureza”, 1863), em que pela primeira vez os princípios do evolucionismo são aplicados ao homem.

(4)     Henry Peter, Lord Brougham (1778-1868): político britânico nascido em Edimburgo. Suas numerosas obras, às vezes contraditórias entre si, cobriram quase todos os ramos do conhecimento da época, tendo ele escrito sobre Filosofia, Teologia, Economia e até Matemática. Destacou-se também por ter fundado revistas e sociedades de difusão do conhecimento e por ter realizado reformas no Parlamento britânico.

Disponível aqui.

Galileu em Roma


Por Ignacio Aréchaga


O processo de Galileu Galilei é um desses episódios históricos muito mencionados e pouco conhecidos. Ao converter-se em um caso emblemático de uma suposta oposição entre ciência e fé, durante muito tempo prevaleceu uma imagem que foi utilizada como arma de combate para ilustrar essa oposição. Mas a melhor homenagem ao criador do método experimental é ater-se à essa exigência de não afirmar nada além daquilo que pode ser demonstrado com rigor, sem que idéias pré-concebidas violentem os fatos.

Foi este o critério seguido escrupulosamente pelos autores do livro Galileo en Roma (ainda inédito no Brasil), em que pretendem expor as relações complexas entre Galileu e a Igreja. William Shea, professor de História da Ciência da Universidade Louis Pasteur de Estrasburgo (França), e Mariano Artigas, físico e professor de Filosofia da Ciência da Universidade de Navarra (Espanha), concentram seus esforços em mostrar os fatos e situá-los em seu contexto histórico, para que o leitor possa responder por si mesmo às perguntas que o processo costuma levantar. “Fizemos comprovações cuidadosas – afirmam os autores –, até dos detalhes mais ínfimos, e pudemos corrigir erros que podem ser observados até nos melhores trabalhos sobre o tema”.

O livro tem seis capítulos, que correspondem às seis visitas, cerca de 500 dias, que Galileu fez a Roma: desde a primeira viagem, em 1587, quando era um jovem de 23 anos à procura de emprego, até a dramática sexta viagem, em 1633, para ser julgado diante do Tribunal do Santo Ofício. Quando esteve em Roma pela segunda vez, em 1611, Galileu já era autor de descobertas astronômicas que o tornaram famoso em toda a Europa. Mas, acima de tudo, era em Roma que ele desejava receber aprovação. Inicialmente foi acolhido com todas as honras, e pôde se encontrar com o Papa, literatos e cientistas, e autoridades eclesiásticas de alto escalão. Galileu queria encontrar respaldo em Roma para o heliocentrismo, de acordo com as teses de Copérnico que desafiavam a filosofia natural de Aristóteles. Encontrou apoio, mas também receio: algumas vezes não foi compreendido, outras vezes se explicou mal: seu orgulho causou desavenças pessoais e a inveja de outros completou o trabalho.

SEIS VIAGENS E UMA TEMPESTADE

O livro conta as circunstâncias das viagens de Galileu a Roma, suas relações na cidade, suas iniciativas e as reações que provocava. A excelente acolhida inicial vai se cobrindo de nuvens até desencadear a tempestade do processo.

Observa-se como os juízes de Galileu, incapazes de separar a fé de uma cosmologia milenar, agarram-se a uma interpretação literal da Bíblia, enquanto o sábio florentino, mesmo defendendo uma verdade científica e um critério mais perspicaz de interpretação das Escrituras, traz como argumentos irrefutáveis do copernicanismo provas inconclusivas.

Os dados históricos demonstram também que a humilhante retratação verbal que Galileu teve de sofrer não foi acentuada por nenhuma violência física. Os clichês que se costumam repetir sobre os
“maus-tratos“ e a “tortura” nos “cárceres da Inquisição”, e ainda a famosa frase Eppur si muove, não têm respaldo histórico. Nos poucos dias que passou no Vaticano durante o processo, Galileu não esteve encarcerado, mas em um confortável apartamento que o tabelião lhe havia destinado, e onde o cientista recebia as refeições preparadas pelo cozinheiro da embaixada da Toscana. Depois da condenação, não foi preso, mas submetido a prisão domiciliar, primeiro na Villa Medici, em Roma, depois no palácio do arcebispo de Siena, que o estimava, e finalmente em sua própria casa em Florença, onde recebia outros cientistas e pôde continuar a trabalhar. A condenação tornou os últimos anos de sua vida amargos, mas não o impediu de continuar a praticar a sua fé como antes.

Shea e Artigas explicam todas essas vicissitudes deixando que os fatos, recolhidos com todo o cuidado, falem por si mesmos. O livro não tem notas de rodapé, mas se baseia em documentos de primeira mão que são citados no final, separados por capítulos. A exposição pode ser cansativa para quem procure um texto de divulgação, mas, levando em conta os preconceitos que desfiguraram o caso, o rigor histórico nunca é demais.

Informações do livro: William Shea e Mariano Artigas, Galileo en Roma. Cronica de 500 dias. Encuentro, Madri (Espanha), 238 páginas.

Leia as primeiras páginas do livro em: www.ediciones-encuentro.es


Disponível aqui.

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

São Pio de Pietrelcina




São Pio de Pietrelcina, rogai por nós!

Leitura: liberdade e diferença


 Por Juan Perucho


É evidente que, sem leitura, não surge afeição à cultura. Portanto, é preciso começar a leitura bem cedo, e o interesse virá gradualmente, por menos predisposição que se tenha. É muito importante — ao menos, parece-me — ganhar gosto pela leitura, não só pelo prazer estético que ela cria e dá, mas também pela cultura geral que proporciona.>

A leitura é o veículo normal e insubstituível da cultura: é a cultura da letra impressa. Nos últimos tempos, vem-se falando de outras “culturas”, como a da imagem e do som, mas é evidente que, sem o substratum da escrita, não conseguem ser cultura. Até a ação de estudar é, normalmente, leitura. Observa se que, para a cultura da imagem, é determinante a educação do olhar, assim como, para a do som, a educação do ouvido; mas ambas não serviriam de nada sem a implícita relação com a educação em geral e, mais especificamente, com a cultura crítica. E esta nos vem dada pela leitura, que inclui alusões e até ironias.

Entretanto, nessa viagem iniciática devem ser tidas em conta as considerações que T.S. Eliot faz nas suas Notas para uma definição de cultura, ao dizer que o termo “cultura” tem diferentes acepções conforme consideremos o desenvolvimento de um indivíduo, de um grupo, de uma classe ou de toda uma sociedade. Por outro lado, também é preciso olhar para os diversos tipos de realizações.

Estamos, pois, diante de um fato complexo. Podemos tomar em consideração — diz Eliot — o refinamento das maneiras, ou a urbanidade e civilidade: e nesse caso, estaremos pensando numa classe social. Ou então podemos pensar em erudição: nesse caso, homem de cultura será o enciclopédico. Ou podemos pensar na Filosofia, em seu sentido mais amplo, ou num interesse pelas idéias abstratas, com alguma experiência na sua concatenação, e então podemos estar-nos referindo ao intelectual.

Passemos agora a uma tentativa de analisar o efeito negativo que os meios de comunicação audiovisuais produzem no âmbito da leitura. Consideremos leitura nos obriga a fazer uma espécie de “ginástica mental”. Nada nos é dado de mão beijada. O acesso à cultura é, no princípio, um tanto áspero e ascético: requer um esforço que não pode ser superficial. Ora, a televisão ou o rádio oferecem-se de maneira tão cômoda e fácil que mesmo os adeptos da leitura se sentem cativados pelas suas imagens sugestivas, e isto é extremamente grave.

A cultura é, no fundo, um repertório de possibilidades. Proporciona os dados para que cada pessoa, escolhendo os de acordo com o seu modo de ser e a sua sensibilidade, se enfrente a si mesma. Como não se pode ler tudo, acaba se por assimilar aquilo que fundamentalmente convém a cada um. A cultura que as escolas e Universidades nos oferecem não nos dá um nível "superior", mas sim diverso: todo mundo certamente lerá Shakespeare ou Cervantes, Goethe ou Rilke, mas alguns aprofundarão mais em Balzac ou em Dickens, em Leopardi ou em Kafka. Todo mundo sabe quem é quem, mas mesmo assim cada qual se nutre das suas afinidades: Lúlio ou Bacon? Dostoievski ou Eça de Queiroz? Machado ou Valéry? Entre dois autores, o déficit de um e a abundância do outro provoca nossas diferenças. Somos diferentes porque, apesar do nível idêntico dos nossos computadores culturais, bebemos em fontes distintas: conhecemos Platão, sim, mas não Zenão de Eléia.

Isto nos torna diversos e divertidos. A comunicação de massa (televisão, rádio, cinema) torna-nos iguais, uniformiza-nos, e assim nos encontramos rindo das mesmas piadas e, no fim das contas, pensando da mesma maneira. A leitura, pelo contrário, liberta-nos e possibilita a meditação daquilo que lemos.

Defendo um conceito de cultura como prática da tolerância, e sinto-me inclinado a afirmar que uma pessoa culta (que se fez através da cultura) é capaz de debater os problemas mais complexos sem se alterar. Sente se tolerante e livre. Em contrapartida, quando a televisão se pronuncia sobre alguma coisa, parece conferir-lhe o status de “coisa julgada”; transmite a impressão de uma autoridade absoluta, e isso evidentemente é um mal. A partir daí, inicia se um processo de homologação massiva que só se pode alterar melhorando os conteúdos culturais da mesma TV.

Isso, porém, é um peixe que come a própria cauda. Quem manda? Os promotores culturais ou o público? Dentro do mundo estritamente cultural, também se formula a mesma pergunta. Quem manda? O escritor ou o editor? Atualmente, tende se a vender o livro como um simples produto manufaturado pelas grandes editoras, com marketing e promoção publicitária intensíssimas. No fim, acaba-se editando aquilo que o grande público quer. Livros são vendidos em liquidação ou são destruídos. Às vezes, só existem para intimidar um autor ou castigá-lo por não obedecer a determinadas exigências editoriais.

Tudo o que acabamos de dizer serve de apelo às instituições responsáveis e conscientes do problema, recomendando lhes que promovam a formação de bibliotecas públicas e privadas, e cuidem de que as pessoas leiam e amem o livro, estimuladas pelos educadores, que são quase os únicos que podem inculcar o amor ao livro e à sua leitura. Não basta amar os livros como produtos de cultura, mas é preciso fazê-lo como uma babá: levantá-los do chão, tirá-los das estantes das bibliotecas, sentir o perfume das suas tintas, acariciá-los, contemplá-los como autênticas jóias. Somente então poderemos recuperar a grande tradição cultural do Ocidente, que estamos perdendo muito depressa.


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segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

Bondade e orgulho

A bondade sem alvo, remoída internamente apenas nas boas intenções, é orgulho. Para ser bom, é preciso fazer algo. Não se sentir compelido para fazer o bem não é necessariamente um problema moral, desde que o indivíduo o faça. Uma pessoa de temperamento mesquinho e egoísta pode ser boa, ao passo que uma outra, de “bom coração”, pode ser vil.

Porém, na maioria dos casos, a pessoa que faz o bem tem bons sentimentos. Parece ser um modelo infalível de santidade, mas existe aí um perigo. Se o indivíduo percebe que costuma fazer o bem, e se tiver um temperamento dado aos “bons sentimentos”, a razão lhe dará todos os artifícios para convencê-lo de que está degraus acima dos mortais que o circundam. O indivíduo sentirá isso como um fardo. Eis a tentação das pessoas boas, a altivez. Para evitá-la, é necessário seguir adiante. Fazer do bem oferecido aos outros um caminho contínuo para ser seguido. Caminho, verdade e vida são a unicidade de que precisamos.

Alguns relatos de santos impressionam pelo modo como eles se percebem. Perguntamo-nos como é possível que criaturas tão bondosas se considerem tão miseráveis. Uma resposta possível é que trata-se, justamente, da busca pela verdade. Eles querem Ser, em verdade, como Cristo o foi. Ter tamanha intimidade, em espírito, com Deus demanda o desprendimento cada vez mais radical da caducidade do “eu”.

É preciso crescer como Cristo, em sabedoria, estatura e graça. Que as pessoas de bem cresçam nas suas boas intenções, façam grandezas e purifiquem suas razões.