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segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

O capitão e o passageiro

Nisto surgiu uma grande tormenta e lançava as ondas dentro da barca, de modo que ela já se enchia de água. Jesus achava-se na popa, dormindo sobre um travesseiro. Eles acordaram-no e disseram-lhe: Mestre, não te importa que pereçamos? E ele, despertando, repreendeu o vento e disse ao mar: Silêncio! Cala-te! E cessou o vento e seguiu-se grande bonança. (Mc 4; 37,39)

Esta passagem do Evangelho de São Marcos me faz pensar nas tragédias climáticas que vitimam centenas de brasileiros todos os anos. No janeiro que terminou, o Rio daquele mês parece ter sido ignorado por um Deus que dormia. Sobre os mortos não encontrados, mesmo os mais crédulos não teriam gritado se Deus não seria mais um escondido? O grito dos agonizantes remete ao sofrimento de Jesus Cristo: "Pai, por que me abandonastes?"

Mas talvez o que os sofredores não sabem é que mesmo esse princípio de revolta contra o Deus que consentiu a tragédia, é uma das mais pungentes orações. É absurdo demais que Deus seja indiferente às tempestades. Ainda que aparentemente Ele durma, ele está na popa.

Nas embarcações, a popa é a área que permite visibilidade privilegiada e onde se localiza o leme do navio. Tradicionalmente, a popa é o local do navio onde também se encontra o aposento do capitão. O navio prevê o repouso do seu chefe, mas mesmo quando ele dorme, ou quando há uma tormenta, sua posição é privilegiada. Ele está no lugar certo, de quem manobra a pujança das águas.

O mar existe em beleza e violência. As ondas que invadem as barcas são manifestações do que é fugaz. Por isso, o passageiro só sairá vivo se permitir a chegada da beleza. Quando se cessarem todos os ventos, seguirá a bonança permanente.

domingo, 30 de janeiro de 2011

Às mulheres que já abortaram


 Um pensamento especial quereria reservá-lo para vós, mulheres, que recorrestes ao aborto. A Igreja está a par dos numerosos condicionalismos que poderiam ter influído sobre a vossa decisão, e não duvida que, em muitos casos, se tratou de uma decisão difícil, talvez dramática. Provavelmente a ferida no vosso espírito ainda não está sarada. Na realidade, aquilo que aconteceu, foi e permanece profundamente injusto. Mas não vos deixeis cair no desânimo, nem percais a esperança. Sabei, antes, compreender o que se verificou e interpretai-o em toda a sua verdade. Se não o fizestes ainda, abri-vos com humildade e confiança ao arrependimento: o Pai de toda a misericórdia espera-vos para vos oferecer o seu perdão e a sua paz no sacramento da Reconciliação. A este mesmo Pai e à sua misericórdia, podeis com esperança confiar o vosso menino. Ajudadas pelo conselho e pela solidariedade de pessoas amigas e competentes, podereis contar-vos, com o vosso doloroso testemunho, entre os mais eloquentes defensores do direito de todos à vida. Através do vosso compromisso a favor da vida, coroado eventualmente com o nascimento de novos filhos e exercido através do acolhimento e atenção a quem está mais carecido de solidariedade, sereis artífices de um novo modo de olhar a vida do homem.
 Papa João Paulo II



Disponível aqui.

sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

Santo Tomás de Aquino - 28 de Janeiro


De família nobre, nascido em Aquino, na Itália, por volta de 1225, São Tomás de Aquino ingressou aos 19 anos na ordem dos Dominicanos contra a vontade da família. Mesmo diante da forte oposição familiar, Santo Tomás prosseguiu em seus estudos de Filosofia e Teologia.
Foi discípulo de Santo Alberto Magno, que ficou impressionado com tamanha inteligência.
A vida desse Santo foi marcada por uma espiritualidade eucarística e por um grande interesse em ensinar pela Filosofia e Teologia os Mistérios do Amor de Deus. Afirmava que fé e razão não se contrapunham.
Sua obra mais conhecida é a Suma Teológica e está disponível aqui.
Foi chamado de "Doutor Angélico" e faleceu em 1274.


Oração de Santo Tomás de Aquino para o estudo:
Criador inefável, que em meio aos tesouros de vossa Sabedoria designastes três hierarquias de Anjos e as dispusestes numa ordem admirável no mais alto dos Céus, e de maneira elegantíssima distribuístes as partes do Universo. Vós, que sois verdadeiramente a Fonte de Luz e o princípio sobreeminente da Sabedoria, dignai-Vos iluminar a escuridão de minha inteligência com um raio de vossa clareza, removendo a torpeza do pecado e da ignorância em que nasci. Vós que fazeis magníloquas até as criancinhas, tornai erudita minha língua e derramai vossa bênção sobre meus lábios. Dai-me agudeza na inteligência, capacidade para reter, método e faculdade para aprender, sutileza ao interpretar, graça e abundância no falar. Concedei-me acerto ao começar, direção ao progredir e perfeição ao concluir. Vós que sois verdadeiro Deus e verdadeiro homem, que vive e reina pelos séculos sem fim. Amém.

Santo Tomás de Aquino, rogai por nós!

quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

There be Dragons

Trailer do filme There be Dragons, sobre a vida de São Josemaria Escrivá, fundador do Opus Dei.
Clique em "cc" para mostrar a legenda.


domingo, 23 de janeiro de 2011

Quanto custa um filho?

Por Marcelo Guterman   


Transcrição da entrevista concedida ao Programa Tribuna Independente, da Rede Vida de Televisão, com a colaboração da Acea – Associação Cultura e Atualidades. 







Luiz Carlos Fabrini, apresentador. Tenho o prazer de ter hoje como convidado deste programa o professor Marcelo Guterman, engenheiro de produção pela Escola Politécnica da USP, analista financeiro certificado pelo CFA – Instituto de Virgínia (Estados Unidos), professor do IBMEC e executivo do mercado financeiro há quinze anos. Ele falará sobre o tema: “Quanto custa um filho?” Boa noite, professor Marcelo Guterman, é um prazer recebê-lo aqui na Redevida. Quanto custa um filho?

Marcelo Guterman. Essa é uma pergunta a que pretendo responder ao longo do programa. Gostaria de agradecer a oportunidade que a ACEA me está dando de participar do Tribuna Independente; sou um fã de carteirinha do programa. Procuro não perder nenhum, e para mim é uma honra poder participar como entrevistado esta noite. Vamos conversar sobre quanto custa um filho e mais genericamente sobre o dinheiro, aquilo que todo mundo quer e ninguém tem.

Gostaria de começar chamando a atenção para o contexto que a relação entre as pessoas e o dinheiro, entre a família e o dinheiro, tem nos dias de hoje. Vivemos num mercado de consumo de massas. Antes da Revolução Industrial, o que tínhamos era algo muito artesanal. Quer dizer: quando as pessoas precisavam de alguma coisa – uma camisa, por exemplo – encomendavam-na a um artesão. Depois da Revolução Industrial, e principalmente no século XX, surgiram as grandes plantas industriais que produzem coisas padronizadas o tempo inteiro para que as pessoas comprem. Bom, as indústrias consomem investimentos muito grandes. Então, é preciso que vendam grandes quantidades dos seus produtos. Como fazer que as pessoas comprem os produtos? É preciso convencê-las de que precisam deles. E aí que entra a publicidade de massa. Se você não compra a TV de plasma da última geração, você está fora do mercado de consumo, não é ninguém. Principalmente se o seu vizinho já tem uma. Aí a casa caiu... você está fora. O consumo virou o principal valor do homem contemporâneo. Quem pode consumir é alguém, quem não pode consumir não é ninguém. É com esse contexto em mente que eu desejo desenvolver o tema deste programa.


Márcia Pagan, pedagoga. O tema “quanto custa um filho?” é muito interessante e até intrigante. Confesso que fiquei curiosa. Professor, quanto custa um filho?

Guterman. O tema do programa, de fato, dá margem a muitos comentários. Vou começar dizendo que não vou responder à pergunta. Um filho custa quanto você quiser que ele custe. Na verdade, o filho custa tudo o que a gente tem. Não tem um valor fixo. Pode custar um milhão de dólares se você quiser mandá-lo estudar com o Harry Potter em Hogwarts. Por outro lado, em famílias mais simples, mais humildes, um filho dá até lucro: às vezes, ajudam nos trabalhos da casa ou trabalham fora. Assim, “quanto custa um filho?” é uma pergunta muito genérica.

Queria chamar a atenção para algumas nuances desta questão. Às vezes, aparecem em algumas revistas reportagens dizendo: “Um filho custa quinhentos mil reais”, “Um filho custa um milhão de reais”, “dois milhões de reais”... A pessoa olha o número, olha o seu salário e fala: “Bom, não vai dar. É melhor nem tentar”. Não podemos deixar-nos levar por este tipo de estatística, porque nos induzem a comparar o gasto de uma vida inteira com o nosso salário mensal. Não faz muito sentido. Vale o mesmo para o contrário. A propaganda de um automóvel de luxo dizia assim: “Com cinqüenta reais por dia, você consegue comprar este automóvel”. “Cinqüenta reais por dia é pouco”, pensamos. E na verdade, é muito. De maneira que esse tipo de comparação não faz muito sentido.

Outra coisa que vale ressaltar – e agora falo mais como pai de sete filhos do que como professor de finanças – é que a conta não é proporcional: se um filho custa x, dois filhos não custam 2x, nem três filhos custam 3x, e assim por diante. A conta não é assim; existe um ganho de escala, existem descontos nas escolas, as roupas passam de um filho para outro. É muito comum eu ir a restaurantes com os meus filhos e negociar com o maître antes de fazer o pedido: “Olha, quanto você faz para a gente?” E o preço acaba saindo o mesmo que um almoço para uma família com três filhos.

Depois, é preciso ter em conta que gastos estão inseridos no custo de um filho. Claro, educação, casa, comida, roupa lavada. Essas coisas, óbvio, são obrigações dos pais. Agora, será que se deve incluir um automóvel? Será que se deve incluir um apartamento nesse custo? Até que ponto os pais têm de prover tudo para os filhos? Na verdade, é preciso ter muito cuidado com essa história de pai provedor. Vemos hoje homens e mulheres de trinta, trinta e cinco, quarenta anos, vivendo com os pais. Não aprenderam a voar sozinhos.

Conheço o caso de uma pessoa que se separou depois de menos de um ano de casamento. Tinha apartamento, carro e todos os seus gastos eram pagos pelos pais. Mesmo assim, separou-se. Depois, veio a revelar-me: “Faltou o desafio, aquele projeto em comum do casal que cresce junto, que conquista as coisas”. Isso os pais provedores não deixam o filho fazer.

Outro ponto quente no que diz respeito aos gastos com os filhos é a educação. “Puxa, a educação é muito cara, é muito caro educar um filho hoje em dia”, reclamam muitos pais. É preciso tomar cuidado também com isso, porque muitas vezes achamos que temos de matricular os nossos filhos em curso de balé, judô, Tai Chi Chuan, inglês, espanhol, francês e ainda canto e violão. A criança acaba tornando-se um pequeno executivo, um executivo mirim: apenas cinco anos de idade e a agenda repleta de atividades. E os pais acham que com isto estão educando os filhos. Na verdade, estão investindo no lado técnico enquanto o lado humano fica esquecido.

Por isso, a palavra-chave para a pergunta “Quanto custa um filho?” é austeridade, educar os filhos na austeridade. Se não têm tudo, terão de conquistar o seu espaço, terão de conquistar aquilo que querem na vida. É isso.


Fernando Gianini, engenheiro Químico. Você falou do mini-executivo, daquele calendário de atividades que a gente às vezes acaba impondo às crianças. Mas os pais fazem isso porque querem o melhor para os filhos: que tenham um ótimo casamento, saúde, uma vida tranqüila economicamente falando. Por isso, acho que muita gente – inclusive em casa – tem a seguinte dúvida: até que ponto os pais podem aconselhar os filhos a respeito da carreira profissional a seguir? Porque geralmente queremos para eles a carreira que dê mais dinheiro. Até que ponto os pais podem entrar nesse assunto?

Guterman. Esta é uma pergunta bastante adequada porque tem até pai que treina o filho para ser jogador de futebol. Aquele sonho... E o que ocorre é o seguinte: os profissionais estão distribuídos em forma de pirâmide dentro da sua área de atuação. Quer dizer, há sempre um grupo no topo que é bem remunerado. Jogador de futebol, por exemplo, ganha bem? Ganha. O Ronaldinho ganha, o Robinho ganha. Mas quantos jogadores de futebol no Brasil que ganham mais do que mil reais por mês?

Fabrini. Pouquíssimos.

Guterman. É isso mesmo. Assim também, a maioria dos professores ganha mal. Mas há professores que ganham bem, como os professores de Cursinho e os donos de escola – que são professores também. Toda a profissão, se bem executada, se a pessoa tem o dom para aquilo, pode levar à realização pessoal e ao sucesso financeiro. Os pais, claro, devem orientar os filhos na hora de escolher uma profissão, mas não devem ter em conta só aquelas que dão mais dinheiro e sim as mais adequadas às características de cada filho. O dinheiro não pode ser o fator principal.


Fabrini. O senhor é casado e tem sete filhos. Quanto custa um filho ao senhor?

Guterman. Segredo de Estado. Se eu contar, as crianças em casa vão querer aumento de mesada...

Márcia Pagan. Ou então vão querer outros irmãozinhos.

Guterman. Pode ser.


Márcia Pagan. Nas suas considerações iniciais, o senhor mencionou algo sobre a sociedade de consumo. O caso é que os nossos filhos sofrem uma influência muito grande desta nossa sociedade de consumo. Pedem o tempo todo que compremos os brinquedos, os mais diversificados possíveis, roupas de grife. É comum ver crianças de dez, doze anos com celulares. E isso é uma coisa preocupante. Como educar os nossos filhos nesse campo? Acredito que as pessoas em casa também têm essa dúvida.

Guterman. Muito bem. Diria que o problema do consumismo e do consumo de grifes é um problema dos pais, não das crianças. Os pais gostam de grifes. Muitas vezes, os pais gostam de vestir os filhos com grifes para mostrar aos vizinhos e parentes que podem vestir os filhos com roupas caras. O avô ou a avó gostam de comprar brinquedos caros para os netos, que na verdade nem ligam para eles. É por isso que o problema do consumismo é dos pais.

As crianças que crescem num ambiente consumista acabam por dar importância a isso. Logo, a educação para o consumo tem de começar desde o início, o mais cedo possível. Mas também não vamos demonizar as grifes. Muitas vezes, as grifes são sinônimo de produtos de qualidade. A chave aqui é o custo-benefício. Muitas vezes, vale a pena pagar um pouquinho mais por um produto de uma marca famosa. Porque, fria e objetivamente, tem mais qualidade do que um sem marca. Vai durar mais e, portanto, vale a pena comprá-lo.

A questão do celular é moda. O celular virou o brinquedinho caro das crianças. É na verdade um vídeo game que pode mandar torpedos. É necessário analisar se as crianças realmente precisam de celular e para que precisam dele. Será que não é um brinquedo caro demais?

Talvez uma forma de educar para o consumo seja ter uma só TV em casa, por exemplo. Seria interessante que cada família tivesse apenas uma TV em casa. E que ela fosse, vamos dizer assim, um evento, algo pouco usado. Não um ruído de fundo que impede o diálogo, ficando ligada o dia inteiro, durante o jantar, o almoço, etc. “Ah, mas como é que eu vou conseguir ver a novela e o meu marido o futebol” (ou vice-versa, porque hoje a mulher gosta de futebol e o marido de novela). Negocie. As crianças têm que aprender a negociar também.


Fabrini. O telespectador Alberto Mendes Ferreira (Aragarças, MT) pergunta: O senhor concorda que o problema do consumo é gerado pelo desequilíbrio entre o comunismo dos preços e o capitalismo dos salários? Por que há comunismo nos preços e não há nos salários?

Guterman. Receio não ter entendido o que você quis dizer com comunismo nos preços. Talvez você se esteja referindo à existência de cartéis de empresas que combinam os preços dos seus produtos. A pergunta seria se o consumismo não é causado por isso. Penso que não. O problema do consumismo parece-me muito mais um problema de formação humana. As pessoas devem ter consciência daquilo que valem. Devem ter consciência de que não valem um objeto, de que não precisam trocar as suas vidas por um objeto, de que podem ser mais do que aquilo que têm. O problema do consumismo está mais dentro da cabeça das pessoas do que nos sistemas que as rodeiam. É isso.


Fabrini. Telespectador Rômulo César Martins (Ipanema, MG): A maior riqueza que um pai pode dar aos filhos é o ensino religioso?

Guterman. Sem dúvida. Eu acrescentaria que, ao lado do ensino religioso formal, está o exemplo nas virtudes. Os pais são insubstituíveis na tarefa de formar os seus filhos nas virtudes. E a virtude de consumir bem, a virtude da austeridade, da temperança, é uma das principais. Assim, o ensino religioso e a formação humana andam juntos, e são sem dúvida nenhuma o maior tesouro que os pais podem dar aos filhos.


Fernando Gianini. Como educar bem os filhos do ponto de vista financeiro? Como fazer para educá-los bem nesse campo?

Guterman. Gastar bem o dinheiro é uma lacuna na formação que se dá nas escolas. Aprende-se física, biologia e outras coisas muito interessantes e muito úteis, mas não se aprendem noções de economia. Ninguém ensina, por exemplo, como funciona um cheque, como funciona o Banco Central, como é que se faz um orçamento; e essas são coisas que as pessoas vão utilizar no dia-a-dia. Como podem os pais preencher essa lacuna?

A mesada é um instrumento possível. Com a mesada, os filhos aprendem desde cedo que o dinheiro é limitado e que, portanto, têm que fazer escolhas na hora de gastá-lo. Se compraram uma coisa, não podem comprar outra. Aprendem o que é poupança e o que é dívida. E aprendem na prática. Por exemplo, quando o filho gasta mais do que tem e pede aos pais que lhe adiantem a mesada, estes têm que dizer “não” e deixar que o menino sofra as conseqüências dos seus atos.

Também é possível educar os filhos na austeridade fazendo compras no supermercado. Ir ao supermercado pode ser uma lição de consumo, contanto que os pais saibam controlar-se. Os pais podem fazer um contrato com os filhos. Podem dizer-lhes, por exemplo: “Ouçam, vamos ao supermercado e cada um vai poder gastar cinco reais em produtos. Este é o contrato”.  Com isso, os filhos começam a notar que precisam fazer escolhas: “Eu queria esse iogurte, mas se levá-lo vou ter que deixar o biscoito. O que escolher?” As crianças também aprendem quando vêem os pais fazendo contas na hora de comprar: “Será que este produto vale mais que esse aí?”, pensam. E assim elas vão ganhando sensibilidade no gasto do dinheiro. Mas compreendam: é indispensável que os pais tenham essas virtudes.


Telespectador João Janjami (Urupês, SP). Qual é o número ideal de filhos? Quanto custa criar três filhos? Qual a renda que os pais devem ter para criá-los num padrão de classe média alta?



Guterman. Como disse no início do programa, é uma pergunta a que não vou responder porque cada um tem lá as suas prioridades. Tenho sete filhos e não vou dizer quanto gasto para que depois os meus filhos não me venham com cobranças lá em casa. Quanto custa criar três filhos num padrão de classe média alta? Certamente, você sabe. Todos os pais sabem quanto custa um filho, quanto custa uma boa escola, quanto custam as roupas. Mas isso não é o que realmente importa; o importante é que você tenha o número de filhos que a sua generosidade permita. Este é o ponto. Sempre cabe mais um. Podemos ser obrigados a renunciar a certos confortos? Sim, mas o que é a vida senão um conjunto de renúncias? Estamos todo tempo a renunciar. Se não aprendemos a abnegação em casa, vamos aprender depois na marra, na rua, da pior maneira possível. O lar é onde a gente aprende isso da maneira mais fácil. E ser generoso no número de filhos é ajuda bastante.


Telespectador Hélio Rodrigues (Rio de Janeiro, RJ). Devo informar ao meu filho qual é o seu custo mensal? Qual é a idade ideal para isso?

Guterman. A pergunta do Hélio é muito interessante. Será que o filho deve saber quanto custa? A partir de uma determinada idade, sim: quando o filho começa a entrar na adolescência, por volta dos doze anos de idade, e já começa a ter noção do preço das coisas. É interessante, por exemplo, que saiba quanto custa a sua escola, para que se sinta mais responsável e seja mais esforçado. É bom que o filho vá a uma loja e saiba quanto custa uma roupa. Sem dúvida, é preciso que os filhos, numa idade mais perto da adolescência, saibam quanto custam.


Telespectador Valdir Reginato (São Paulo, SP). Até que ponto um pai deve sacrificar o tempo de dedicação aos filhos para pagar as contas do seu custo?

Guterman. É uma escolha dura. Às vezes, os pais sentem-se culpados por não poderem dedicar aos filhos o tempo que gostariam, porque trabalham demais justamente para lhes dar a educação formal que acham necessária para que tenham sucesso, ganhem dinheiro e, depois, sacrifiquem as suas vidas para criarem os seus próprios filhos da mesma maneira, num ciclo que não faz muito sentido. Então, efetivamente, é preciso balancear essas coisas. Sim, é preciso ganhar dinheiro. Mas, se chegamos ao ponto de sacrificar a essa tarefa o tempo dos nossos filhos, é preciso parar para pensar. Pode não valer a pena. Pode valer a pena ganhar menos e conviver mais com as crianças.



Márcia Pagan. Vou começar com uma piada que o meu marido me contou. Dois amigos estavam conversando. Um disse para o outro, sorrindo: “Roubaram o cartão de crédito da minha mulher”. O outro responde: “E como é que você me conta isso sorrindo. Não deveria estar preocupado? E o primeiro: “Preocupado? Claro que não. O ladrão gasta muito menos que ela”.

Então, professor, já que estamos falando de finanças, gostaria de saber qual é a melhor forma de o casal gerenciar o seu dinheiro? É conveniente que o casal tenha uma conta conjunta ou cada um deve cuidar do seu próprio dinheiro em contas individuais? Porque a gente escuta tantas piadas desse tipo que chega a pensar que a mulher não tem mesmo capacidade para administrar o dinheiro.

Guterman. Ainda bem que foi você quem contou essa piada; se fosse eu, poderiam achar que sou machista. O fato é o seguinte: há mulheres que gastam muito..., mas também há homens que são parada dura. Não acredito que a falta de controle na hora de gastar esteja relacionada com o sexo.

Quanto à questão da conta bancária, muita gente diz que as contas separadas são melhores, porque permitem que cada um controle mais os seus gastos. E aquele que passar dos limites arca sozinho com as conseqüências, enquanto o outro fica tranqüilo. Só que na prática não é isso o que acontece. Mesmo com contas separadas, os gastos de um cônjuge sempre vão acabar respingando no outro.

Obviamente, existem casais muito felizes com contas separadas. Mas tenho para mim que a conta conjunta reflete mais a essência do casamento. O que é o casamento? É a fusão de duas pessoas. Manter contas separadas dá a impressão de que os noivos casaram pensando o seguinte: “Conta conjunta? Melhor não. Prefiro manter a minha independência”. Bom, então que tipo de casamento é esse?

Há também a reclamação: “Ah!, mas conta conjunta causa muita briga, porque um gasta muito, o outro gasta pouco”... Na verdade, o problema não está na conta bancária. O problema está na falta de harmonia do casal, que acaba refletida na sua vida financeira. Não é o dinheiro que atrapalha a harmonia do casal.

Por fim, o controle da conta deve ser feito pelo cônjuge mais controlado, mais organizado; pode ser a mulher ou o marido, tanto faz.


Telespectadora Maria Aparecida Meneguini Viola (Batatais, SP). Sou mãe de dois filhos que lutei muito para criar sozinha. Agora que estão grandes, o pai reapareceu e os conquistou com os seus dólares. Com a cabeça virada, os meninos estão querendo tirar tudo o que tenho. Querem que eu assine logo uns papéis para levar tudo o que possuo. Quando passo perto deles, fingem que não me conhecem; um deles que é pai de família ensina os filhos a fazerem isso também. O que faz uma mãe com tanto desamor?

Guterman. Não consigo conhecer todo o caso somente por aquilo que a senhora fala, mas certamente uma mãe que chora os seus filhos não terá as suas lágrimas desperdiçadas. A gente sabe disso. Não posso dar conselhos concretos. Sugiro que a senhora procure uma pessoa que possa realmente orientá-la; talvez um parente que tenha mais ascendência sobre os meninos. O que eu posso dizer-lhe é que tenha fé na educação que a senhora deu aos seus filhos. Certamente, voltarão.

Fabrini. E ela também tem de lutar pelos seus direitos na Justiça, porque os filhos não a podem forçar a assinar nada.

Guterman. Sem dúvida.


Fernando Gianini. Infelizmente, é muito comum a gente ver casais que ficam completamente sem dinheiro já na metade do mês. E há outros que perdem a paz fazendo contas para conseguir que o dinheiro dure o mês inteiro. Gostaria que o senhor falasse um pouco sobre a importância do orçamento familiar?

Guterman. O orçamento familiar é uma coisa muito importante na vida financeira da família. O orçamento, mais do que uma peça financeira, é uma oportunidade de diálogo entre o casal principalmente, e depois, quando os filhos crescem, do casal com os filhos. É o momento em que a família define os seus projetos de médio e longo prazo. “Gostaríamos de fazer uma viagem? Bom que bacana, então quanto custa? Custa tanto. Será que temos dinheiro? Vamos planejar”. Isso é o orçamento. O orçamento deveria ser até um evento. Talvez anual... As empresas fazem isso. A gente deveria até aprender com as empresas. As empresas levam os seus funcionários para um lugar, onde eles debatem e fazem planos. O orçamento familiar poderia ser um bom motivo para reunir a família e discutir projetos. Sem aquela neurose do controle total, mas fazendo um planejamento que na verdade é uma forma de diálogo familiar. É isso.


Telespectadora Maria Maia (Maringá, PR). Os brinquedos chineses, que são descartáveis, prejudicam a educação para o consumo?

Guterman. Tenho uma certa prevenção contra eles, porque a gente não sabe muito bem como são produzidos. De qualquer maneira, às vezes, são a única maneira que as famílias com menos recursos têm de presentearem as crianças. É preciso ver bem qual é o matiz que se queira dar a essa questão.


Márcia Pagan. A gente escuta muito as pessoas dizerem que, por mais que façam e tentem, não conseguem fazer o salário durar o mês inteiro. Pensando naquilo que você falou sobre o orçamento familiar, gostaria de algumas dicas sobre como é que a gente pode economizar. Acho que todo mundo tem essa preocupação.

Guterman. Sem dúvida. Uma dica prática, por exemplo, é separar já no início do mês, assim que se recebe o salário ou se retira o “pro-labore”, uma quantia, 5%, 10%, e fazer de conta que esse dinheiro não existe. Põe-se num investimento programado, numa caderneta de poupança, enfim, em algum lugar. E esquece-se, o dinheiro não existe. Dessa forma, você vai aprendendo a viver com menos.

Como viver com menos? Por exemplo, faça uma lista de gastos: um em baixo do outro, do maior para o menor. Veja quais são realmente necessários, focando os maiores. Vou dar um exemplo muito simples, que aconteceu na época do racionamento de energia, em 2001. Cada um na sua casa teve que cortar 20% do seu consumo de energia. 20%! Parecia impossível. Como é que nós fizemos em casa? Fizemos uma lista e chegamos à conclusão de que os alvos deviam ser o chuveiro e a máquina de lavar louça. Assim, diminuímos um pouco o tempo de banho e simplesmente eliminamos a máquina de lavar louça. E como vivemos sem ela? Muito bem. Tanto que hoje não temos mais. Aprendemos a viver sem ela.

Temos de aprender a eliminar aqueles gastos que parecem indispensáveis e que, no fim das contas, não são. Não podemos ter medo de cortar na própria carne, ou seja, de deixar de lado os confortos de que mais gostamos. E isso é muito mais fácil se você tem uma família numerosa, o que implica dificuldades e apertos.

O nosso orçamento é mais ou menos como um botijão. Cada um dos nossos gastos representa um pouquinho de gás que botamos lá dentro. Não importa o tamanho do botijão; se gastamos sem nenhum controle, uma hora ele vai explodir. Tem gente que, quando ganha aumento no salário, pensa: “Maravilha! Agora eu tenho dinheiro para gastar!” E vai gastando até ficar endividada. Eu mesmo conheço pessoas que ganham muito e estão endividadas. Porque a questão não é quanto se ganha, mas como se gasta.


Márcia Pagan. Quer dizer que mesmo uma pessoa que tenha o salário bem apertadinho para os seus custos mensais tem condição de separar esses 10% no início do mês?

Guterman. Para uma pessoa de classe média, sim. Basta querer.


Telespectadora Dalcy Gonçalves (Patrocínio, MG). Tenho uma filha de vinte anos que é muito consumista. Tudo o que gosta, quer comprar. Não adianta falar com ela. O que posso fazer para convencê-la a mudar?

Guterman. Isso deveria ter sido feito antes. Mas não vamos chorar o leite derramado. Agora é preciso que tome uma medida radical e não compre nada do que ela lhe pede.

Acontece que muitas vezes é difícil à família dizer “não” aos filhos quando ela tem dinheiro para comprar o que eles querem. “Por que não comprar se tenho dinheiro?” Por isso, muitas vezes situações de aperto econômico que parecem uma desgraça à primeira vista – como quando o pai perde o emprego, por exemplo – são realmente providenciais, porque acabam servindo para educar os filhos na austeridade.

Gianini. Na marra?

Márcia Pagan. Por necessidade!

Guterman. Exatamente. Enfim, o conselho que eu posso dar, além de todos os que já foram saindo durante o programa, é simplesmente este: não compre.


Fabrini. E o que dizer da pressão que o filho faz sobre o pai quando quer alguma coisa? Cito aqui um exemplo que parece piada, mas não é. Um filho queria um carro a todo o custo. Pressionou o pai até não poder mais. O pai não cedeu e disse que, para começar, o rapaz ainda tinha dezessete anos e não podia tirar a carta de habilitação. Mas o rapaz começou a chantageá-lo: “Se o senhor não me der o carro, eu vou me suicidar!” Aí o pai ficou muito preocupado e procurou um padre. O padre, que era muito amigo da família, disse: “Ah, ele quer suicidar-se? Tudo bem. Se você precisar de um revólver, eu empresto”. Moral da história: o menino não se suicidou nem ganhou o carro. O pai resistiu à pressão e venceu a parada.

Guterman. É preciso que os pais aprendam a dizer não. Muitas vezes o que acontece é que os pais têm um peso na consciência porque – lembremo-nos da pergunta do Valdir no início do programa – não dedicam o tempo que deveriam aos filhos e querem compensar isso com coisas, substituir a sua presença com coisas, e não conseguem dizer não. A melhor coisa que um pai pode fazer por um filho é dizer “não” no momento certo. Isso evita muitas dores de cabeça no futuro.

Gianini. E os filhos testam os limites?

Guterman. Sem dúvida, o tempo inteiro.


Telespectadora Arlete Ribeiro (Curitiba, PR). Qual a idade ideal para começar a dar mesada e qual o valor inicial?



Guterman. Uma pergunta bastante pertinente, Arlete. Os filhos começam a pedir dinheiro logo que começam a querer aquelas coisas próprias das crianças, doces, lanches, figurinhas, etc. Principalmente, quando têm irmãos mais velhos, porque já sabem que existe esse negócio de mesada. Quando a criança é o filho ou a filha mais velha, começa a perceber que as coisas custam dinheiro por volta dos sete anos de idade. Então, já podemos dar-lhe algum dinheiro.

Para as crianças mais novas, o ideal é dar uma quantia semanal porque ela ainda não tem noção de planejamento de longo prazo; um mês é um prazo longuíssimo para ela. Depois, conforme for crescendo, conforme for entrando na adolescência, devemos dar uma quantia mensal mesmo, para que aprenda a planejar-se.

A quantia pode variar. Depende daquilo que está incluído na mesada. É preciso que haja um contrato muito bem definido entre os pais e a criança. O que vale e o que não vale comprar com aquele dinheiro. O lanche na escola está incluído ou não? O transporte para a escola? A recarga no celular, se o adolescente já tem um celular? O cinema? Enfim, é preciso fazer uma lista das principais atividades da criança ou do adolescente e decidir em quais o dinheiro da mesada pode ser empregado. Pode comprar roupa? De que tipo?CDs, DVDs? Só com a lista se pode chegar a um valor.

Além disso, não podemos simplesmente dar a mesada na mão da criança e esquecer. Os pais devem orientar a criança, ajudá-la a poupar. Devem sugerir coisas como: “Será que você conseguiria comprar esse jogo que você quer se guardasse tanto por três meses?” Três meses é o máximo para as crianças, porque logo mudam de interesse e o dinheiro acaba servindo para outra coisa. Quando os pais sabem orientar os filhos, a mesada pode ser um excelente instrumento de educação financeira.


Telespectador Moreira (Natal, RN). Quando é que um filho, ao invés de ser custo, se torna lucro?

Guterman. Um filho sempre é lucro. É duro encarar os filhos como um investimento, apesar de às vezes eu ter também essa tentação. Não devemos fazer isso. O investimento num filho não se mede dessa maneira.


Telespectador Ricardo Ramos (Porto Alegre, RS). O que sai mais caro: um filho ou uma filha?

Guterman. Ricardo, você quer arrumar-me problema em casa. Nós costumamos dizer que a filha dá mais despesa... por causa das roupas... Mas não quero falar nisso, porque senão vou apanhar quando chegar a casa. Agora, cá entre nós, elas não estão ouvindo, acho que uma filha dá um pouquinho mais de despesas. Mas é marginal, quase nada.


Telespectadora Susy Ângelo (Cornélio Procópio, PR). Pode-se oferecer um prêmio pelo mérito da criança? Por exemplo, dar uma bicicleta se passar de ano?

Guterman. Sem dúvida, um prêmio é algo muito bem-vindo. Mas é preciso ter limite, matizar bem o prêmio. É preciso tomar cuidado para não premiar a criança por algo que é um dos seus deveres. A obrigação da criança é estudar e passar de ano. Ao premiá-la por ter cumprido o seu dever, podemos estar criando pequenos mercenários em casa, que vão começar a cobrar para fazer tudo. É preciso tomar muito cuidado com isso. Obviamente, valem a pena um doce, um jantar fora para comemorar, essas coisas que, inclusive, congraçam a família em torno da conquista da criança. Mas cuidado com o tamanho do prêmio para não correr o risco de criar um pequeno mercenário em casa.


Telespectador Valter Bernardes (São José do Rio Preto, SP). Qual a diferença entre o ter e o ser? Como ensiná-la aos os filhos?

Guterman. Acho que essa pergunta é como que um resumo do programa. Porque tentei passar aqui a idéia de que o “ser” deve prevalecer sobre o “ter”. “Ser” é realizar-se como pessoa, adquirir virtudes; pode ou não passar pelo “ter”, que é periférico. Quantas famílias não vemos passar por desgraças econômicas e que, por isso, acabam mais unidas. É isso que distingue os verdadeiros homens e mulheres.

Foi uma honra poder participar deste programa e responder a perguntas do Brasil inteiro, da Márcia, do Fernando, do Fabrini.  E, pegando a deixa da última pergunta, quero dizer que é preciso ter uma visão crítica da nossa sociedade de consumo atual. Não somos obrigados a comprar nada. É bom ter isso em mente. Nós, os pais, podemos fugir das modas se quisermos. Distinguir o que precisamos daquilo que queremos. Uma pessoa que vive assim, com muito ou com pouco dinheiro, vai viver melhor com certeza.

O coração do homem foi feito para coisas maiores do que os bens materiais. Estes são necessários, mas não podem tornar-se a meta de uma vida.

sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

Namoro e casamento

 Por Leda Galli Fiorillo 


A IMPORTÂNCIA DO NAMORO



O período preparatório para o casamento tem o objetivo imprescindível de construir o entendimento espiritual necessário que será a base para uma relação sólida e duradoura. Mas não é só isso.

Se é verdade que amar significa querer o bem do outro, e se também é verdade que querer o bem significar ajudar o outro a realizar-se como ser humano – isto é, como indivíduo livre e responsável – na harmonia de todas as suas faculdades, é lógico pensar que, no período do namoro, cada um dos dois aprende a encarregar-se do outro, do verdadeiro bem do outro, para além dos impulsos instintivos e do desejo de uma satisfação imediata. Em outras palavras, cada um deles aprende a ser responsável pelo autêntico crescimento do outro. Daí as delicadas atenções recíprocas e os amáveis carinhos, típicos de quem sabe que tem nas mãos algo precioso.

E, de fato, o namoro é um período verdadeiramente de ouro, que deve ser valorizado ao máximo. Ainda não há as responsabilidades da vida quotidiana a dois e, portanto, toda a atenção se concentra na alegria da contínua descoberta recíproca. É um tempo de espera ansiosa por algo que ambos sabem que um dia experimentarão plenamente, mas que já percebem como sagrado e inviolável, porque tem a ver com um mistério que fascina, mas que também incute respeito. É o tempo das emoções tanto mais intensas quanto mais delicadas: em que basta a doçura de um olhar para ruborizar-se, o roçar de uma mão para fazer o coração bater loucamente... Sensações maravilhosas, puríssimas, comovedoras, das quais só pode desfrutar quem não se abandona ao turbilhão dos sentidos antes do tempo.

É também nesta época que se começa a notar que uma renúncia feita a dois torna a relação muito mais profunda. Enfim, o namoro constitui uma autêntica escola de vida.

Mas o namoro também é um tempo de projetos, do planejamento concreto da futura vida familiar, da escolha de critérios comuns e da convergência para os mesmos objetivos.

Então, é evidente que aqui entra em jogo não só a esfera da afetividade, mas também a esfera da racionalidade; e é necessária toda a racionalidade para que os sentidos fiquem serenos!

Só um percurso desse tipo conduzirá de forma natural os dois jovens, dia após dia, a amadurecer o irresistível desejo – mais ainda: a irrefreável necessidade – de assumirem finalmente um compromisso recíproco forte, definitivo e feito diante do mundo todo, no qual vão oferecer-se um ao outro numa doação de amor total.

Compreende-se que haja quem chame este compromisso de casamento!


O CASAMENTO, SELO DO AMOR



Já sinto nos ouvidos um clamor de protesto: “Que necessidade temos de nos casar?! Não basta morarmos juntos e conviver?!” E a resposta é imediata: “Um momento: somos, por acaso, puros espíritos?” Se fôssemos puros espíritos, então sim; bastaria um simples ato da vontade, expresso pelos dois, e a decisão seria incontestável, definitiva e irrevogável.

Acontece que não somos puros espíritos. Somos também um corpo, que, como tal, se submete às leis da matéria. Portanto, situado no espaço, o corpo está sujeito à força da gravidade que o puxa para baixo, e, situado no tempo, está sujeito à deterioração, que o faz decair progressivamente. Por isso, a livre decisão tomada pelos dois tem necessidade de um apoio adequado, isto é, exige que seja firmada e ratificada por um ato material; e, além disso, são necessárias testemunhas que confirmem que esse pacto foi realmente celebrado.

Precisamente por ser matéria, o corpo exige sinais materiais, tangíveis: não basta a intenção. Por acaso o primeiro conhecimento da realidade não vem através dos sentidos corpóreos (a camada mais externa...)? Quem, aliás, se comprometeria numa relação de trabalho sem exigir que se estipulasse e se assinasse um contrato regular? Ficaria contente apenas com promessas verbais?

É claro que o contrato compromete, vincula. Mas é justamente este o seu sentido: recordar às duas partes a decisão tomada em conjunto, com plena consciência e liberdade – sob pena de nulidade do próprio contrato – e, por isso, com plena responsabilidade por parte de ambos (o binômio liberdade-responsabilidade...), com tudo o que a responsabilidade comporta.

Talvez haja quem se aborreça de ouvir falar de um contrato a propósito do amor, que é o que de mais livre pode existir no mundo, tanto que, se não for livre, nem sequer é amor! Mas, vale a pena recordar que a liberdade – a verdadeira – não é ausência de qualquer vínculo –seria uma liberdade absoluta, que não é própria do ser humano! –, mas é sempre um saber vincular-se à coisa certa, chegando assim à realização de um bem (a verdadeira liberdade...). E que bem maior pode existir para o amor senão o da sua própria perpetuação?!

Mas, e as testemunhas, para quê? Explica-se. O amor é um fato privado, mas os seus efeitos são um fato público, social. Fica constituída uma nova célula da sociedade, que passa a interagir com as outras. A sociedade, tal como a humanidade, não é um ente abstrato: tanto uma como a outra são fruto da somatória de muitas unidades elementares. Uma nova unidade – uma nova família – enriquece a sociedade e diz respeito a todos os seus membros. Esta é a função das testemunhas, quer sejam amigas dos noivos ou não, embora a amizade as torne idôneas para apoiar o casal nos inevitáveis momentos de crise... A função delas é, precisamente, atestar perante a sociedade inteira o nascimento de uma nova célula no seu seio.

Não há dúvida de que paramos de falar de amor quando reivindicamos o direito à união livre – porque então não há a vontade de comprometer-se de verdade, mas sim de deixar aberta uma fácil via de fuga (sob o pretexto que também o casamento pode dissolver-se).

O amor, por natureza, não conhece limites temporais. Quem ousaria dizer à pessoa amada: “Vou amá-la até 19 de fevereiro de 2008...”? E quem quereria ser amado dessa maneira? Pelo contrário, ressoa imperioso o “Vou amá-la para sempre!”. É a exigência de eternidade própria do amor. Acaso não continuamos a amar os nossos amigos e parentes falecidos, mesmo que a ausência do contato físico faça os sentimentos desaparecerem com o tempo? (O amor não é só um sentimento...). Aliás, o fato de deixarmos lembranças nos corações daqueles que amamos não exprime esse desejo, essa tentativa de eternização, para além da morte? Por fim, não é verdade que todos os problemas da humanidade são, no fundo – como já vimos no início –, problemas de amor, de amor satisfeito em todas as suas exigências?

Pois bem: é realmente necessário ensinar aos jovens que o amor é exigente. Ou não é amor.

É necessário educar os jovens para o amor.


Disponível aqui.

Quem é São Josemaria?

São Josemaria Escrivá de Balaguer (1902-1975)
 Josemaria Escrivá nasceu em Barbastro (Huesca, Espanha), em 9 de janeiro de 1902. Seus pais chamavam-se José e Dolores. Teve cinco irmãos: Carmen (1899-1957), Santiago (1919-1994) e outras três irmãs menores do que ele, que faleceram ainda pequenas. O casal Escrivá deu aos seus filhos uma profunda educação cristã.

Em 1915, a indústria de tecidos do pai abre falência, e ele tem de mudar-se para Logronho, onde encontrou outro emprego. Nessa cidade, Josemaria dá-se conta pela primeira vez da sua vocação: depois de ver umas pegadas na neve dos pés descalços de um religioso, intui que Deus deseja alguma coisa dele, embora não saiba exatamente o quê. Pensa que poderá descobri-lo mais facilmente se se fizer sacerdote, e começa a preparar-se, primeiro em Logronho e, mais tarde, no seminário de Saragoça.

Seguindo um conselho de seu pai, cursa na Universidade de Saragoça a Faculdade de Direito, como aluno livre. Seu pai morre em 1924, e ele fica como chefe de família. Recebe a ordenação sacerdotal em 28 de março de 1925 e começa a exercer o ministério numa paróquia rural e depois em Saragoça.

Em 1927, transfere-se para Madrid, com permissão do seu bispo, a fim de doutorar-se em Direito. Ali, no dia 2 de outubro de 1928, Deus faz-lhe ver a missão que lhe vinha inspirando havia anos, e funda o Opus Dei. A partir desse momento, passa a trabalhar com todas as suas forças no desenvolvimento da fundação que Deus lhe pede, ao mesmo tempo que continua a exercer o ministério pastoral que lhe fora encomendado naqueles anos, e que o punha diariamente em contato com a doença e a pobreza dos hospitais e bairros populares de Madrid.

Quando eclode a guerra civil, em 1936, encontra-se em Madrid. A perseguição religiosa obriga-o a refugiar-se em diferentes lugares. Exerce o seu ministério sacerdotal clandestinamente, até que consegue sair de Madrid. Depois de atravessar os Pireneus até o sul da França, instala-se em Burgos.

Quando termina a guerra, em 1939, volta a Madrid. Nos anos seguintes, dirige numerosos retiros espirituais para leigos, sacerdotes e religiosos. Nesse mesmo ano de 1939, conclui os estudos de doutorado em Direito.

Em 1946, fixa a sua residência em Roma. Obtém o Doutorado em Teologia pela Universidade Lateranense. É nomeado consultor de duas Congregações vaticanas, membro honorário da Pontifícia Academia de Teologia e Prelado de honra de Sua Santidade. Acompanha com atenção os preparativos e as sessões do Concílio Vaticano II (1962-1965) e mantém um relacionamento intenso com muitos padres conciliares.

De Roma, faz numerosas viagens a diversos países europeus para impulsionar o estabelecimento e a consolidação do Opus Dei nesses lugares. Com o mesmo objetivo, realiza entre 1970 e 1975 longas viagens até o México, a Península Ibérica, a América do Sul e Guatemala, e nelas também tem reuniões de catequese com grupos numerosos de homens e mulheres.

Falece em Roma no dia 26 de junho de 1975. Vários milhares de pessoas, entre elas muitos bispos de diversos países - quase um terço do episcopado mundial -, solicitam à Santa Sé a abertura da sua causa de canonização.

No dia 17 de maio de 1992, João Paulo II beatifica Josemaria Escrivá. Proclama-o santo dez anos depois, em 6 de outubro de 2002, na Praça de São Pedro, em Roma, diante de uma grande multidão. «Seguindo as suas pegadas», disse o Papa nessa ocasião na sua homilia, «difundam na sociedade, sem distinção de raça, classe, cultura ou idade, a consciência de que todos estamos chamados à santidade».

Disponível aqui.