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quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

A história de Tobias e Sara, de Paul Claudel

Nietzsche constata em Além do bem e do mal: O cristianismo perverteu a Eros, este não morreu, mas degenerou-se. Tornou-se vício.

Não tenho condições de falar a partir do fundo protestante que Nietzsche vivia, mas pelo menos a tradição católica, que ainda continua na História, aponta para uma outra direção. Exemplos contemporâneos, como a Carta Encíclica Deus caritas est, do Papa Bento XVI, ou uma obra de arte, como a peça A história de Tobias e Sara, de Paul Claudel, ainda envolvem a tradição oficial e a cultura católica na beleza do amor entre o homem e a mulher. O cristianismo eleva o Eros.

O Livro de Tobias, retirado das Bíblias protestantes por ser considerado apócrifo (isto é, supostamente mais esotérico, historicamente impreciso e fantasioso do que inspirado por Deus) sinaliza, assim como o Cântico dos Cânticos para a poética do desposar. São dois livros importantes para a espiritualidade católica, que evoca a conjugação de Cristo com a Igreja a partir de imagens matrimoniais.

Na coerência unitiva que salva e esclarece, o Antigo Testamento está contido no Novo Testamento. A poética de Tobias é a história dos matrimônios que fazem a Igreja.

Na peça A história de Tobias e Sara, encenada pela primeira vez no Teatro Municipal de Hamburgo em 1953, os atores conjugam o verbo novo. A adaptação de Claudel é profundamente católica no sentido de esclarecer e revitalizar a Antiga Aliança. É emblemático, inclusive, que o teatro de Claudel tenha vigor clássico, mas seja combinado de recursos modernos como projeções cinematográficas e síntese entre falas de versos livres, música e dança.

Na trama de Claudel e no livro bíblico, Sara é a alma humana dolorida que aguarda ser desposada. O pai de Tobias, o sofrido hebreu que insiste com a credulidade, envia seu filho para o Oriente. Tobias viaja para receber um dinheiro do pai de Sara, mas a restituição significa mais. O ocidente e o oriente se unirão, o antigo e o novo se sacralizarão. O jovem, guiado pelo bom e misterioso Azarias (que se revelará ao fim como o anjo Rafael), será o esposo de Sara. O casamento de Tobias e Sara consumará nas palavras claudelianas o verbo anunciado pelo anjo Rafael:

E tu, emerge, reaparece, reaparece solenemente na noite. Traz ao homem o que outrora lhe arrebataste. Paraíso da criação, emerge, paraíso de delícias, paraíso de volúpia, júbilo da inteligência, agora, e não mais apenas do animal, imagem para a eternidade entesourada pelo abismo e de remorso tornada promessa! Envolve com teu enlace sagrado feito de dois braços o que apenas te esperava nascer, esse beijo ao encontro de sua boca e o desejo ao encontro de sua prece!

Meditação de Paul Claudel sobre São José

Enquanto a Gaby e eu falávamos sobre Paul Claudel me veio, subitamente,  a vontade de emudecer diante da meditação abaixo. Para breve aqui no blog, prometo comentários sobre o autor, com foco em sua obra dramatúrgica.

Quando as ferramentas são colocadas em seu lugar e o trabalho do dia termina, quando, do Carmelo ao Jordão, Israel adormece no trigo e na noite, como antigamente, quando ele era muito jovem e ficava escuro demais para ler, José conversa com Deus depois de um grande suspiro. Ele preferiu a Sabedoria, e é ela que lhe trazem para que ele a despose.
Ele é silencioso como a terra na hora do orvalho. Ele está de bem com a alegria, de bem com a verdade. Maria está em seu poder, e ele a rodeia de todos os lados. Não é em um único dia que se aprende a não estar mais só. Uma mulher conquistou cada parcela desse coração agora prudente e paternal. De novo, ele está no paraíso com Eva!
Esse rosto de que todos temos necessidade  volta-se com amor e submissão para José. Já não é a mesma oração, a mesma espera, desde que ele sente a proximidade deste ser profundo e inocente.
Já não é a Fé despojada na noite, é o amor que explica e que opera. José está com Maria, e Maria está com o Pai. E nós também, para que Deus enfim se aproxime, cujas obras ultrapassam a nossa razão, para que a sua Luz não seja perturbada pela nossa lâmpada, e a sua Palavra pelo barulho que fazemos, para que venha a nós o Vosso Reino e seja feita a Vossa vontade, para que possamos recuperar as origens com profunda delícia, para que o mar se acalme e Maria comece, ela que recebeu a melhor parte, Patriarca interior, José, obtém para nós o silêncio!